Embora constasse que sua Majestade, a Rainha D. Maria 11, se deslocaria ao Alentejo, a Câmara Municipal de Aldegalega só tomou conhecimento «da jornada de Suas Majestades», na reunião de 28 de Setembro de 1843. Então, ficou inteirada, através do oficio do Governo Civil de Lisboa que deveria tomar, «imediatamente todas as providências para, terraplanar e arranjar a Estrada Real que vai para Évora, e bem assim que faça quanto estiver ao seu alcance para que por esta ocasião se dêm todas as maiores demonstrações de regozijo e prazer com a chegada de Suas Majestades (e) finalmente que a sua recepção seja de tal modo que se manifestem os sentimentos d'amor e veneração às Augustas Pessoas de Suas Majestades, e dando assim hum novo testemunho de lealdade e gratidão.»
[Foi natural que o Governador Civil se tivesse referido à oportunidade que Aldegalega tinha de dar novo testemunho da lealdade e gratidão à Rainha, porque não fora pacífica a aceitação da Monarca pela vila, visto que o auto de legítima aclamação da Rainha tinha sido mandado trancar pelas forças rebeldes, em 23 de Julho de 1833, e só no dia 4 de Agosto se procedeu à aclamação e reconhecimento da «única, legitima e verdadeira Rainha dos Portugueses a Senhora Dona Maria Segunda»].
Para anunciar a visita a Câmara deliberou afixar editais e convidar os moradores a adornarem «as janelas de sedas ou damascos, segundo as circunstâncias de cada um».
A recepção da Família Real e do seu séquito traduziu-se, também, como a seu tempo se verá, numa avultada despesa extraordinária para a qual o cofre do município não tinha meios suficientes. Para ultrapassar a situação os Vereadores Francisco Pereira Duarte e Joaquim José Marques «se prestarão a adiantar a quantia de 1 668 666 reis, cuja quantia lhe será satisfeita pelo produto da importância da renda do Imposto na Carne e Vinho do mez de Outubro».
Para melhor receber Suas Majestades, foi decidido que «se fizessem dois Arcos e um Pavilhão e que neste houvesse pronto um refresco decente para se ofertar às Augustas Pessoas, que viesse uma Banda de Música para assistir ao desembarque, e que nesse dia houvesse iluminação nos Arcos e Casa da Câmara e Vila e que as janelas da Casa da Câmara fossem armadas».
Aldegalega do Ribatejo aprimorou-se para receber a Família Real.
No dia 2 de Outubro de 1843, a Câmara Municipal foi informada que Suas Majestades tinham resolvido «passarem o dia de 4ª-feira, 4 do corrente, em Aldegalega, onde pernoitarão, partindo de Lisboa às 10.00 da manhã, no Barco de Vapor Terceira e seguir a sua jornada a Évora no dia 5.»
O Cais e a Vila animaram-se. Começaram a desembarcar os criados, os utensílios de cozinha, as camas, os apetrechos para a comodidade real e parte do séquito. A Vila ganhou um novo rosto e a Câmara e a Igreja Matriz foram decoradas a preceito.
De Lisboa a Câmara recebera ordens protocolares precisas. A Rainha e a Família Real pernoitariam na Casa da Câmara, assim como a sua comitiva, ou seja, «o Duque do Porto, uma dama, uma governanta, o Duque Estribeiro Mor, o Presidente do Conselho de Ministros, um gentil-homem da Câmara, um Ajudante de Campo d’El Rey e 3 criadas». Noutra casa deveriam ser alojados «um dos Ministros do Estado, o Médico, os criados de mesa e o Ajudante de Campo do Presidente do Conselho de Ministros».
No dia 4 de Outubro, a Rainha, D.ª Maria II e o marido, D. Fernando II, e os filhos, D. Pedro e D. Luís, chegaram ao Terreiro do Paço, às 10.00, onde, depois dos cumprimentos protocolares, tomaram lugar no barco a vapor “Terceira”, que levava a bordo uma guarda de honra, com banda de música. Durante a travessia, foi servido o almoço às reais pessoas e à sua extensa comitiva.
«Viva a Rainha!», vibrou a multidão que a esperava no Cais, conjuntamente com a Vereação, juiz da Comarca, o Administrador do Concelho e outras autoridades.
A Rainha foi recebida debaixo do pálio e depois de lhe terem sido entregues as chaves da vila, o Presidente da Câmara dirigiu-lhe a seguinte mensagem:
«Senhora: A Câmara Municipal de Aldeia Galega do Riba-Tejo, entregando a Vossa Majestade as chaves desta notável vila, vem submissa e respeitosa apresentar a V.M. os protestos de amor e lealdade que consagra à Augusta Pessoa de V.M.; a seu Esposo, EI-Rei Senhor D. Fernando, e aos Sereníssimos Príncipes, seus Filhos, em quem a Nação contempla o mais seguro penhor da nossa futura glória. Os habitantes deste município aceitam a visita que V.M. se digna de fazer a esta rica e fértil província, como um novo testemunho de solicitude com que V.M, por meio do seu previdente governo, empenha os seus desvelos a bem dos povos, que a Divina Providência confiou aos seus maternais cuidados, consolidando assim a Carta Constitucional da monarquia, e promovendo a prosperidade dos seus súbditos. Possam as bênçãos do céu acompanhar por toda a parte a V.M. e à sua Augusta Família, assim conto as bênçãos destes povos, e as demonstrações singelas mas puras do seu regozijo lhe testemunham a sua adesão e o seu respeito».
A Rainha respondeu: «Fico certa do amor e lealdade que consagrais à Família Real.
Continuarei a adoptar todas as medidas conducentes a consolidar a Carta Constitucional da monarquia, e a promover a prosperidade dos meus súbditos».
A seguir organizou-se um cortejo, que era enorme, que se dirigiu à Igreja do Espírito Santo, onde houve Te Deum laudamus, em acção de graças. Suas Majestades, terminadas as cerimónias na igreja, que estava ricamente engalanada, recolheram-se, por entre alas da guarda de honra do Regimento de Infantaria 16, aos Paços do Concelho, tendo, para isso, de passar sob um artístico arco. À porta do domus municipalis, encontrava-se uma banda de música, que tocou o Hino da Carta. Devida à aglomeração de pessoas, foi necessário o regimento fazer alas para Suas Majestades passarem e atravessarem o largo para se dirigirem para os Paços do Concelho, onde lhes foi servido um refresco.
Às 19 horas, serviu-se o jantar, para o que foram convidados o presidente da Câmara, que foi agraciado com o Hábito de Cristo, o Juiz de Direito e o administrador do concelho. A seguir, houve recepção, tendo S.M. recebido os cumprimentos da Câmara, das pessoas da sua comitiva, dos párocos do arciprestado e de outras pessoas notáveis da vila. A Sua Majestade foram apresentadas diversas petições para o progresso da vila. Não se sabe quais foram e menos se foram atendidas.
Os pobres da vila e as instituições de caridade não foram esquecidos neste momento. Aos primeiros foram distribuídos 100$000 réis; às recolhidas do hospício foram dados 19$200 reis. Os «presos também receberam provas da real munificência». A guarda de honra que acompanhou a Rainha recebeu 144$000 réis.
Suas Majestades, à noite, deram um passeio pela vila que «apareceu espontaneamente iluminada». À porta dos Paços do Concelho, que tinha também luminárias, encontrava-se uma banda de música a expensas do município.
Às 22 horas, foi oferecido pelo município um refresco a Suas Majestades, e aproveitando a passagem do aniversário do dia em que o visconde da Serra do Pilar tinha iniciado as vitórias para a restauração da Carta, a Rainha agraciou-o com a Comenda da Ordem de Torre e Espada.
Após estas cerimónias, Suas Majestades recolheram aos seus aposentos.
No dia seguinte, pelas seis horas da manhã, a Rainha e a sua comitiva partiram, entre os vivas da multidão, que enchia as ruas, em direcção a Évora, apeando-se, antes, em Atalaia para ali fazer as suas orações.
Fonte: https://ruki-luki.blogspot.com/2013/04/visita-da-rainha-d-maria-ii_10.html?m=1

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