quinta-feira, 22 de outubro de 2026

A vida privada de D. Carlota Joaquina ganha espaço no Palácio de Queluz

Investigação da Parques de Sintra permitiu identificar a ala onde a rainha viveu a última fase da sua vida e faleceu. O novo espaço museológico reúne objetos pessoais da monarca, alguns dos quais expostos pela primeira vez.

O trabalho de investigação desenvolvido pelas equipas da Parques de Sintra permitiu desvendar uma importante página da história do Palácio Nacional de Queluz: os aposentos onde a rainha D. Carlota Joaquina viveu os últimos anos de vida e onde morreu.

Localizada junto à emblemática Sala do Trono, a ala foi agora alvo de um projeto de musealização, inaugurado a 20 de outubro, que evoca a vida e a memória da monarca, cuja história está intimamente ligada ao palácio.

“Esta descoberta dá-nos uma leitura mais rigorosa do edifício e permite-nos compreender melhor a forma como uma vida se inscreveu nele”, afirma João Sousa Rego, presidente do Conselho de Administração da Parques de Sintra. O responsável considera que esta intervenção permite dar à História “uma dimensão humana que, por vezes, a solenidade dos monumentos parece deixar à distância”.

O novo percurso museológico integra cinco salas que revelam a intimidade, os hábitos e os gostos da rainha através de objetos que lhe pertenceram, alguns apresentados ao público pela primeira vez.

A visita começa pela Sala de Entrada e prossegue para a Ante-Câmara, que funcionava como sala de espera, e para o Oratório, destinado à devoção religiosa da monarca. Seguem-se a Câmara ou Quarto de Dormir, espaço reservado ao repouso e à toilette da rainha, e o Camarim, que desempenhava as funções de sala de estar privada.

Para João Sousa Rego, a intervenção reflete a missão da Parques de Sintra de aprofundar o conhecimento sobre os monumentos que gere e aproximá-los do público.

“Cuidar de um palácio implica aprofundar continuamente o conhecimento sobre ele e encontrar formas de o tornar acessível às pessoas”, sublinha o responsável, defendendo que os palácios devem ser “casas de cultura: lugares onde a investigação se partilha, onde se descobrem novas relações e onde há sempre razões para regressar”.

Entre móveis, pinturas, objetos devocionais e decorativos, os Aposentos de D. Carlota Joaquina apresentam algumas peças que foram adquiridas recentemente pela Parques de Sintra e que estão expostas ao público pela primeira vez.

É o caso de uma Cruz-relicário do Santo Lenho com uma representação escultórica da “Pietà” de Miguel Ângelo, produzida em Itália, no início do século XIX. Pertenceu a D. Carlota Joaquina e esteve nos seus aposentos no Palácio de Queluz, aparecendo descrita em pormenor nos inventários. No entanto, desconhecia-se o seu paradeiro desde que foi vendida em leilão após a morte da rainha. Recentemente, apareceu em leilão, sem estar identificada a sua propriedade original. A equipa da Parques de Sintra reconheceu a peça, recuperou-a e trouxe-a de volta a casa, quase duzentos anos depois.

Outra novidade é um retrato de D. Carlota Joaquina, da autoria do pintor Luis de la Cruz y Ríos. A pintura mostra a rainha nos últimos anos da sua vida, precisamente a altura em que viveu nesta ala do Palácio. Com o rosto emoldurado por um exuberante toucado de rendas, decorado com cravos e espigas de trigo, a rainha surge representada de acordo com a moda que estava em voga nas cortes da época.

Destaque também para um retrato de D. Miguel I, o filho que a rainha sempre apoiou na defesa da causa Absolutista. A obra, atribuída a João Baptista Ribeiro, executada entre 1828 e 1830, retrata o rei com várias ordens militares e honoríficas, tendo como fundo a barra do Tejo com a Torre de Belém.  

A nova museografia desta ala conta, igualmente, com o empréstimo de duas pinturas pertencentes ao acervo do Museu Nacional Machado de Castro, que nunca foram mostradas ao público: um retrato de D. Carlota Joaquina, representada na qualidade de Princesa do Brasil, e outro de D. Pedro Carlos de Bourbon e Bragança (1786-1812), que habitou estes aposentos antes da terem sido ocupados pela monarca, que era também sua tia.

O Presidente do Conselho de Administração da empresa destaca a “atitude de antecipação que permite à Parques de Sintra reunir, ao longo do tempo, um acervo capaz de valorizar os palácios e dar maior profundidade às histórias” que são partilhadas com o público e sustenta que, ao assegurar a preservação destas peças e o acesso público ao seu conhecimento, a empresa cumpre também “uma missão de interesse nacional, salvaguardando testemunhos da nossa história para as gerações futuras”.

Este projeto representa um investimento de cerca de 150 mil euros, distribuído pela conservação, pelo restauro, pelas aquisições e pela museologia e “é um investimento que transforma conhecimento em experiência de visita”, conclui o responsável.

A investigação levada a cabo pela Parques de Sintra não só revelou que os aposentos usados pela rainha na última fase da vida estavam localizados numa ala próxima da Sala do Trono (utilizada pela monarca para a suas cerimónias de audiência), como permitiu apurar que foi nesse espaço que morreu, aos 54 anos, contrariando a informação que circulou (e ainda circula) de que a rainha teria falecido no Pavilhão Robillion.

D. Carlota Joaquina é, desta forma, uma das figuras mais importantes da história do Palácio Nacional de Queluz. Este projeto museográfico dignifica e perpetua a sua memória, dando a conhecer aos visitantes a sua vida, o seu papel decisivo na corte e o seu gosto, sempre atento às tendências da época.

Fonte: https://sintranoticias.pt/2026/10/22/a-vida-privada-de-d-carlota-joaquina-ganha-espaco-no-palacio-de-queluz/

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