Diretor do Palácio Nacional da Ajuda e do Museu do Tesouro Real, o historiador José Alberto Ribeiro oferece-nos neste D. Amélia uma visão mais intimista da última rainha de Portugal, graças aos diários a que teve acesso. Ressalta do livro a imagem de uma mulher decidida.
José Alberto Ribeiro escreveu a biografia de D. Amélia com base nos seus diários. Historiador conversou com o DN sobre aquela que foi a última rainha de Portugal.
Os diários a que teve acesso, tanto os na posse do Estado Francês como os de um colecionador particular, foram escritos em francês. D. Amélia é muito jovem quando vem para Portugal. Oriunda de uma família não reinante, mas prestigiada, ao casar em 1886 com D. Carlos corresponde aos desejos dos Orleães, como era a obrigação dinástica. Afeiçoou-se muito a Portugal?
Também jovem, porque tinha 22 anos, mais dois anos do que ela.
Sim, e faziam anos no mesmo dia, a 28 de setembro. Ele nasceu em 1863, e D. Amélia em 1865.
Essa afeição por Portugal passa por aprender português. Bem?
Vai aprender português e vai falar muito bem. Aliás, há relatos, obviamente não logo no início, de que já ninguém notava que a sua língua-mãe não era o português. Inclusive, em 1938, Leitão de Barros faz-lhe uma entrevista, e depois faz uma segunda, em 1951, poucos meses antes da rainha morrer, entrevista essa que foi filmada. É o único registo com som da rainha D. Amélia. A parte final é engraçada, porque ela pergunta, a rir, se ficou bem. E Leitão de Barros contou que na primeira entrevista, de 1938, pensava que encontraria já uma senhora com sotaque, pelas décadas de exílio, e a expressão que ele usa foi “parecia que estava a falar com uma senhora em pleno Chiado”. Em 1951, a rainha, tem um português mais arrastado, já com sotaque francês, mas falou sempre muito bem o português, e escrevia muito bem, sem erros.
Esta afeição a Portugal tem também efeitos prático, nomeadamente na obra assistencial dela, e também - foi tema da sua tese de doutoramento - de proteção do património. É uma estrangeira que nos traz modernidade?
Traz. Há aqui duas questões que é importante referir. Ela vem de uma família muito culta. O bisavô tornou o Palácio de Versalhes num museu. E promoveu grandes obras públicas em Paris, como o Arco do Triunfo, grandes obras públicas no Louvre. Um tio, irmão do pai, cria o Museu de Chantilly, com a abertura da Pinacoteca ao público. Portanto, todos eles são pessoas ligadas às artes e à cultura, e pintavam e desenhavam. E ela vai encontrar isso também na família de adoção. Os Braganças eram melómanos, tocavam, falavam línguas. D. Luís tinha traduzido obras de Shakespeare. Ela vai ter esses parceiros nesta família portuguesa. E depois, num país onde a rainha constitucional tem um papel de representação e ter filhos, ela ao criar todas estas organizações ligadas a uma solidariedade filantrópica está a criar estruturas paralelas de poder. E a rainha não cria só a Associação Contra a Tuberculose ou o Instituto de Socorros a Náufragos. Ela assiste às reuniões, ela insiste que seja montada uma estrutura organizacional, que preside até poder sair e elas continuarem a funcionar. Outro exemplo do que fez: a rainha era uma amazona, montava muito bem a cavalo, e tinha uma clara noção do que eram as coleções de carruagens que havia em França, ou em Viena. E tem a noção que o que encontra guardado no picadeiro real era uma coleção única. E é ela que tem a ideia de se criar ali um museu. É graças à rainha que se vão inventariar os coches. Há ali um papel também de museóloga que convida pessoas para catalogar, para inventariar, para classificar tudo, e para abrir o museu ao público, como veio a acontecer em 1905.
Apesar do amor a Portugal e tudo o que ela dá ao país vai ter um momento trágico, que é quando matam o marido e um dos filhos. E, de repente, não só é uma rainha viúva, como tem que apoiar aquele filho sobrevivente que vai ser último rei de Portugal. Nesse dia não escreveu no seu diário, como conta no livro. D. Amélia vai ser o esteio de D. Manuel naqueles dois anos?
Completamente. Ela está sempre por trás dele. Sempre a chamar-lhe a atenção que ele tem de ler, tem de se modernizar, saber o que era o advento do socialismo… Ele tinha 18 anos. E daí a preocupação para ele se casar. Portanto, para fortalecê-lo. Percebe que a monarquia está um bocadinho no canto do cisne. Quando D. Carlos deixa fazer a ditadura de João Franco, a rainha é completamente contra. E disse ao marido que estava a esticar demasiado a corda e que iriam ter consequências disso. É claro, nunca poderia imaginar… D. Carlos estava já muito doente. O rei, se não fosse o regicídio de 1908, não viveria muito. Está com uma diabetes gravíssima. Numa época em que não há tratamento. O rei tinha os dentes a cair, tinha dores, tinha dias que ficava na cama. E a rainha está mesmo muito preocupada com o que é que pode acontecer. Eles têm a noção que estão no fio da navalha. O próprio D. Carlos tem a noção que o momento era muito difícil. Aliás, ele tinha uma frase que dizia que “os monarcas morriam de todas as doenças, como um dos mortais, mais uma, que era o atentado”. Com o início do século XX e o avançar, a rainha vai escrevendo “sente-se qualquer coisa no ar.” Há um ambiente muito degradado. O regime, politicamente, está muito degradado.
Aquele episódio dela a tentar rechaçar os regicidas com um ramo de flores é real?
É verdade. Tentando proteger a família, e protegeu. D.Manuel foi salvo, provavelmente, pelo ramo de flores que bateu na cara do regicida. É como uma leoa que se levanta a defender os filhos. D. Carlos tem logo morte imediata. D. Luís Filipe, que era o seu preferido, que tinha sido muito bem preparado, quer pelo pai, quer pela mãe, acabou por falecer uns segundos depois. D. Manuel ainda ficou ferido no braço.
Não há nela, porém, ressentimento contra os portugueses?
Não há. Vou-lhe dar um exemplo. Na década de 30, já os reis espanhóis estavam exilados. Afonso XIII e Vitória Eugénia. Reúnem-se em França, julgo que em Fontainebleau. E Vitória Eugénia, que nunca gostou dos espanhóis, que dizia que eram um povo bárbaro, horrível, diz isto em frente à rainha D. Amélia. Que de imediato lhe diz, “não volte a dizer isso acerca dos espanhóis. Porque não lhe tiraram o marido e o filho à sua frente, como aconteceu a mim, e eu nunca me queixei dos portugueses. O problema dos portugueses são os políticos. O povo é um povo bom”. Porque ela percebe que havia coisas diferentes em Portugal em relação àquilo que ela conhecia de França ou de Espanha. Há uma grande proximidade com o povo da parte dos nossos monarcas constitucionais. E esta outra história que lhe vou dizer era impossível acontecer na Inglaterra ou com o Kaiser da Alemanha. A rainha estava em Vila Viçosa, e quando lá estão, ou a mãe vem de Sevilha, ou eles vão a Sevilha. Normalmente, quando estava em Vila Viçosa, ia à feira de Sevilha. E quando chegou à feira, ela comenta no diário: “encontrei o cigano João, de Vila Viçosa, e fui falar com ele. Ofereceu-me um prato de sopa e comi o prato de sopa com ele e gostei muito de o ver”. D. Carlos também tem esta proximidade com as pessoas. Sabiam bem qual era o estatuto deles, mas sabiam estar com qualquer pessoa.
Depois do derrube da monarquia em 1910, D. Amélia mantém como missão principal proteger a ideia de retorno da monarquia, e promove o casamento de D. Manuel. E depois, quando percebe que não haverá sucessão dinástica, também está por trás das tentativas de acordo com o ramo miguelista. Ela acreditou sempre ser possível o retorno da monarquia em Portugal?
Acima de tudo, o regresso da monarquia em Portugal ela percebe que teria que ser já não por força armada, porque as intervenções não tiveram grande sucesso. Repare: a família real portuguesa é muito pequena. Desde a morte de D. Maria II e vários filhos, e depois de D. Pedro V sem filhos, as irmãs de D. Luís casam com príncipes alemães, o irmão que fica, D. Augusto, não casou, e no final da monarquia são muito poucos. Com a morte de D. Luís Filipe e D. Carlos, torna-se rei D. Manuel e o príncipe herdeiro é o tio D. Afonso. Ainda antes da implantação da República, há uma tentativa de ligação com o ramo miguelista, que manda condolências a D. Amélia e a D. Manuel. Há a intenção de que eles viessem para Portugal. E eles, reconhecendo que D. Manuel era o rei de Portugal, pedem um palácio para viver, e o rei e a mãe estão de acordo, mas o Parlamento não autorizou. Entretanto, dá-se a implantação da República, a saída para fora, a estadia deles em Inglaterra, e depois há a tentativa do Pacto de Dover e depois do Pacto de Paris. D. Manuel casa em 1912, o Pacto de Paris é de 1925, que os miguelistas aceitaram, mas depois vêm dizer que já não estavam interessados. Portanto, há sempre uma tentativa de ligação daqueles dois ramos. O que acontece é que D. Manuel II percebe que os anos vão passando e que não terá filhos. Ele casa com D. Augusta Vitória Hohenzollern-Sigmaringen, ainda é prima, descendente de uma tia-avó. Uma novidade que este livro também traz, é quando um membro da Casa Imperial do Brasil, D. Pedro Gastão, vai ter com a rainha e falam de uma ideia que era de D. Manuel, ir buscar ao Brasil um primo e juridicamente torná-lo herdeiro. Essa ideia desaparece, porque D. Manuel morre em 1932, portanto, a linha constitucional de D. Pedro acabou, não há mais ninguém e a rainha percebe. Ela nunca aceita muito bem chamar Duque de Bragança ao intitulado Duque de Bragança do ramo de D. Miguel. Para ela o Duque de Bragança era o filho, que morreu... Mas chega a ter contactos…
Com D. Duarte Nuno, que é o pai de D. Duarte Pio?
Sim. A rainha a partir de 1932, vive nos arredores de Versalhes, e recebe uma vez lá D. Duarte Nuno. No diário até diz que o acha parecido com D. Manuel e que é pena eles nunca se terem encontrado e nunca terem falado.
Formalmente, nem D. Amélia nem D. Manuel reconheceram os miguelistas?
Não. Quer dizer, no Pacto de Paris, supostamente, eles ao reconhecerem D. Manuel haveria um entendimento familiar. Há várias tentativas de entendimento, e D. Amélia foi madrinha de uma irmã mais nova de D. Duarte Nuno, D. Adelaide, que morreu há poucos anos, com 100 e tal anos. Há sempre essa tentativa, só que do lado do constitucionalista eles vão desaparecendo. D. Afonso casa com a americana Nevada Hayes e morre pouco tempo depois, em 1920.
E também sem descendência.
Portanto, aquela linha acabou. A partir de determinada altura, sempre que falam à rainha de reinstalar uma monarquia, ela começa a dizer, “sim, mas tem que ser feito sempre com a autorização do professor Salazar.”
O primeiro contacto com Salazar como é que acontece?
O rei morre em 1932. Estava a iniciar-se o que viria a ser o Estado Novo, e Salazar, ministro de Finanças, escreve e trata logo de mandar vir o corpo e faz um funeral de Estado em Portugal. Há uma relação cordial, que a Salazar também interessava agradar aos monárquicos, embora dizendo sempre que não era o momento de implantação da monarquia. E a rainha agradece sempre, como não podia deixar de ser, educada que era. E, portanto, quando lhe perguntam da restauração, responde assim, “nada pode ser feito sem o professor Salazar”. Ela, no fundo, pensa que talvez ainda pudesse ser feita a restauração da monarquia. Anos mais tarde, há o casamento de D. Duarte Nuno com uma prima do ramo brasileiro, D.Maria Francisca de Orleães e Bragança, que era duplamente parente da rainha D. Amélia, quer do lado francês, Orleães, e por afinidade de casamento, Bragança. E a rainha vê com muitos bons olhos esse casamento. Eles ao tomarem a nacionalidade portuguesa, D. Maria Francisca torna-se a única descendente de D. Pedro IV portuguesa. E D. Duarte Nuno descendente de D.Miguel, também português. E, portanto, há aí a ligação dos dois ramos e a rainha manda-lhes um presente e fica muito satisfeita com essa união. Tanto assim é que aceita ser madrinha de D. Duarte Pio.
D. Amélia morre em 1951 e tem direito a um funeral de Estado. Mas ela esteve em Portugal antes. Em 1945. Como correu essa visita?
Vem com algum receio. Mas é bem recebida por Salazar, chefe do governo, e pelo presidente Carmona. Ela não quis ficar em nenhum palácio. Ficou no Hotel Aviz. No diário escreve os sítios onde vai. Vai a Fátima.
Fátima, cujas aparições datam de 1917, já com a rainha no exílio.
Mas de que ela toma conhecimento e fica sendo muito devota de Nossa Senhora de Fátima. E quando cá vem, oferece o manto da rainha, que está hoje no Museu de Fátima. Tem uma entrevista com Salazar. Mas vem sempre com receio que possam pensar que ela está a abusar da boa vontade dos portugueses.
Em termos populares, tem ideia de como é que foi a receção?
Desde a chegada a Santa Apolónia, foi recebida apoteoticamente. Há sítios em que ela pede para estar sozinha. Em Sintra, esteve sozinha no palácio. E quando foi visitar o túmulo do marido e dos filhos, em São Vicente de Fora, está sozinha. O que deve ter sido complicado para uma senhora já de uma certa idade. Houve já quem escrevesse que Salazar teria dado dinheiro à rainha. A rainha nunca teve problemas financeiros. Tinha uma renda mensal que os Orleães recebiam de um banco, e fez questão de deixar 500 contos para o sanatório D. Manuel II, na Guarda. “Para que os portugueses não achem que eu fui demasiado pesada durante a minha estadia”. E 500 contos em 1945 era algum dinheiro.


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