Se foi este o nome que recebeu à nascença, não sabemos, mas era por ‘Gatita’ que D. Amélia a tratava. Segundo a crónica escrita por Augusto Barreto, primeiro almoxarife do Palácio da Pena, em 1911 – já depois da queda da monarquia – no jornal ‘O Concelho de Cintra’, a rainha gostava de mimar a sua gata: tinha uma coleira de prata com o nome ‘Amélia’ gravado, gostava de bons petiscos – como “o gostoso camarão da Barra e o fino gateau britânico” – e, claro, era acarinhada todos os dias pela sua dona.
D. Amélia foi a última soberana a habitar o Palácio da Pena – era onde se encontrava na manhã de 5 de outubro de 1910, dia da Implantação da República, e dali partiu para o exílio. A Gatita acabou por ficar para trás, num enorme palácio, sempre na esperança de voltar a ver a sua dona. “Todos os dias a encontro no interior do Palácio. Percorre tudo como que ainda procurando a sua antiga e real dona. Toda coquette e luzidia, é ela ainda a senhora absoluta dos aposentos mais luxuosos do castelo. Nos appartements da rainha, ela passa o melhor da sua vida, prefere-os a todos os outros”, escreveu Augusto Barreto, que viveu no Palácio da Pena após a queda da monarquia.
Com a partida da sua dona, Gatita continuou a ser alimentada por antigos empregados da Família Real e a viver tranquilamente no Palácio. Quando este era visitado, Gatita era o centro das atenções. Houve até quem tentasse ficar com ela: num outro artigo escrito para o mesmo jornal em novembro desse ano, Augusto Barreto conta a história bizarra de uma senhora francesa que queria a todo o custo levar a gatinha para Toulouse, aquando da sua estadia em Sintra para participar no Congresso Internacional de Turismo. “Pedia-me para a levar para essa cidade do sul de França. Amavelmente disse-lhe que não, o que ela não me perdoou, porque enquanto esteve na Pena, diversas vezes me fez o mesmo pedido, de uma forma bem cruel”, recorda o responsável. Não podendo ficar com o animal, a senhora decidiu levar outra lembrança: “No baile da Câmara de Lisboa em honra dos turistas, quando estava num dos salões, uma dama em traje branco de gala dirige-se-me a perguntar de chore, em puro francês, pela gata. Reconheci logo a francesa de Toulouse. Respondi-lhe que estava boa; e depois de várias conversas, convidei-a para uma valsa. Ao despedir-me, agradecendo-lhe, ela, com uma graça toda francesa, disse-me: “Não me quis dar a linda gata, mas eu tenho della uma bela lembrança”. E numa risada sumiu-se”, descreve Augusto Barreto que, mais tarde, descobriu que a coleira de prata da Gatita tinha desaparecido.
Com ou sem coleira, a pequena gata continuava a ser dona e senhora do seu Palácio, sempre na esperança de voltar a ver a sua dona: “As poucas vezes que sai à rua, procura sempre os pontos mais altos para avistar o horizonte. Quando a vejo a fitar o mar, lembro-me, e creio, que ela é a única amizade que a sua dona aqui deixou, e que de tantos que a bajularam e serviram, nenhum se lembra mais da rainha Amélia que a sua Gatita; e quem sabe se na sua vista de lince, olhando o mar, ela sentirá mais que ninguém a saudade de tão brusca separação. E é por isso que a régia gata espera ainda a dona, para poder saborear de novo o fino camarão da Barra e os doces biscoitos da City”.
Fonte: https://www.parquesdesintra.pt/pt/sobre-nos/blog/gatita/
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