terça-feira, 11 de junho de 2024

Paço Real de Salvaterra de Magos

O Paço Real de Salvaterra de Magos, monumento de relevo na vila, teve a sua época áurea no reinado de D. José I. Paço de predilecção real devido a Salvaterra ser um bom local de caça, este edifício oferecia outras vantagens para além da localização, como é o exemplo do teatro de ópera. Muitos espectáculos se realizaram em Salvaterra de Magos, sendo alguns, estreias nacionais. As catástrofes naturais aliadas a algum desleixo por parte da Coroa, ao longo dos anos, foram destruindo o Paço e, deste imponente monumento, hoje em dia pouco resta.

As primeiras referências ao Paço datam de 1383, aquando do contrato de casamento da Infanta D. Beatriz com o rei de Castela (Tratado de Salvaterra de Magos). Estas referências indicam a existência de um paço medieval (Paço Velho). Outros tipos de documentação, assim como despachos, foram assinados em Salvaterra de Magos, o que pressupõe a existência de um edifício digno de receber as mais altas entidades nacionais e internacionais. Porém, as referências documentais sobre o Paço, não são abundantes.

Só por volta do ano de 1542, o Paço Real volta a ser referenciado. O rei D. João III entrega o Senhorio da Vila ao seu irmão, o Infante D. Luís (ambos filhos do rei D. Manuel I), que procede a obras de ampliação e remodelação do Palácio já existente, o que origina o “Paço Novo”. Desta ampliação, surge a Capela Real com especial destaque. Daí ao edifício ter-se dado, também, o nome de “Paço do Infante D. Luís”.

Pode, talvez arriscar-se dizer que o Paço Real de Salvaterra surgiu verdadeiramente enquanto o Infante D. Luís deteve o Senhorio da Vila. As obras de ampliação foram imensas. Desde a Capela Real aos magníficos jardins, D. Luís fez do antigo paço um “edifício sumptuoso e capaz de ser habitação sua”, como referem os seus biógrafos. Gastou neste paço mais de cinquenta mil cruzados sem chegar, infelizmente, a vê-lo concluído.

Foi o Infante D. Luís que, acompanhando de perto toda a obra, dando inclusive, algumas indicações, tornou Salvaterra de Magos num local onde, futuramente os nossos monarcas se fixavam, durante longo período de tempo, para tirar proveito das vastas coutadas.

A dinastia Filipina deu, também, um grande contributo para a manutenção do paço real, desde o arranjo dos jardins ou a estipulação de verbas avultadas para a conservação de todo o paço.

É com a dinastia de Bragança que o Paço Real de Salvaterra de Magos volta a assumir maior importância. No reinado de D. Pedro II, o Paço Real tem grande destaque, dada a aptidão deste monarca para a caça. D. Pedro II vê em Salvaterra o lugar certo para as actividades de caça e do toureio a cavalo e, não alheio à manutenção do paço, procede a obras de pintura dos tectos, conferindo-lhe um toque barroco. Estas alterações podem, ainda hoje ser confirmadas na Capela Real.

Inspirados no ex-voto que contem a única imagem conhecida de uma das fachadas do paço, pode-se concluir que era constituído por um corpo central de três pisos, mais dois corpos laterais que teriam dois pisos. No corpo central pode observar-se uma larga arcaria de volta perfeita no piso térreo, onde assenta uma “loggia” com colunas de ordem jónica. O terceiro piso teria dimensões mais reduzidas.

Os pisos superiores, dos corpos laterais, teriam janelas de sacada protegidas por varandas de guardas de ferro. Os aposentos confluíam para um claustro, em colunata, proporcionando assim a intimidade.

Ainda hoje é possível observar alguns vestígios do paço na malha urbanística, tendo em conta a diversa cantaria, assim como capitéis jónicos (alguns, actualmente pertencem a privados) e colunas cilíndricas dispersas pela vila. Vestígios esses que formavam a colunata “loggia”.

Pelo reinado de D. José I, o Paço Real de Salvaterra de Magos atingia o seu momento áureo com a fixação da Família Real na vila, durante os meses de Inverno. Por essa altura, o paço teria a seguinte constituição: jardim e horta, aposentos nobres para a Família Real e respectiva comitiva – “aposentos das damas, casas de Secretário, quartos dos guarda-roupas, sala dos Tudescos, quarto do Estribeiro-mor, residência do Almoxarife e respectivos serviços, como a casa do padeiro, telheiro das galinhas, duas cozinhas, uxaria, cavalariças, cocheiras, casas de falcoaria” (in O Paço Real de Salvaterra de Magos – a Corte, a Ópera, a Falcoaria, de CORREIA, Joaquim e GUEDES, Natália Correia), também a Sala dos Archeiros e, por volta do ano de1753, a Casa de Ópera.

O crescente interesse dos monarcas em Salvaterra, tem o seu ponto alto no reinado de D. José I, que foi de uma importância vital para o paço, dado que grandes obras de requalificação e ampliação foram efectuadas no seu reinado. A Casa de Ópera foi, de longe, a mais importante alteração executada no paço, pois esta obra trouxe mais ritmo à vila de Salvaterra de Magos. Com o Real Theatro, Salvaterra de Magos passou a ter outro tipo de entretenimento para além da caça.

No entanto, foi também durante o reinado de D. José I, que se deu o terramoto de 1755, que viria a danificar consideravelmente o Paço. Procedeu-se ao seu restauro e ampliação no ano imediato e durante os quatros anos seguintes.

Uma sucessão de incêndios, tremores de terra e alguma negligência por parte da Casa Real levou à degradação do Paço de Salvaterra. Também a ida da Família Real para o Brasil, no reinado de D. Maria I (numa altura em que D. João VI era Regente), enfraqueceu o ritmo daquele que fora, outrora, local de predilecção real.

Segundo descreve José Estevam, em “Anais de Salvaterra de Magos”, aquando das Invasões Francesas, enquanto a Corte se mudava para o Brasil, as tropas napoleónicas passavam por Salvaterra de Magos e, sem grandes escrúpulos, alojavam-se tranquilamente no Paço Real. Fizeram estragos, levando inclusive, alguns dos objectos que pertenciam ao magnífico edifício.

No ano de 1818, João dos Santos, a mando de Sua Majestade, foi enviado a Salvaterra de Magos, de modo a averiguar estragos e proceder às reparações, há tanto tempo solicitadas pelo almoxarife. O Almoxarife que, preocupado com a progressiva ruína do paço, participou por diversas vezes, durante anos, o estado em que se encontrava o edifício.

No entanto o que o inspector observa não abona em favor do almoxarife. Segundo João dos Santos, as tropas haviam danificado muito o paço, contudo, a maioria desses danos era da responsabilidade do almoxarife que “arrancara grande parte dos panos que forravam os tectos das casas e dos corredores e os ferros das cozinhas, deixando em completo abandono as cavalariças, (…) por sua faculdade albergavam pessoas estranhas ao palácio (…)” e que “o almoxarife não guardara, mas estragara e delapidara” (in ANAIS DE SALVATERRA DE MAGOS – DADOS HISTÓRICOS DESDE O SÉCULO XIV, ESTEVAM, José).

Passados alguns meses, na madrugada de 28 de Setembro desse ano, deu-se o mais avassalador incêndio no paço, que foi determinante para a sua destruição. No ano de 1818, a Família Real permanecia ainda no Brasil, como tal, foi num clima de abandono que o incêndio deflagrou.

Este acidente teve graves consequências no futuro do palácio, pois se já antes o edifício necessitava de obras (nomeadamente no que diz respeito aos telhados e algumas divisões), agora a sua reparação tornar-se-ia praticamente insustentável.

A progressiva ruína do Paço, aliada às dificuldades da Coroa em manter o mesmo, levou D. Maria II a ceder ao Estado as dependências do Almoxarifado de Salvaterra de Magos: “o Palácio Real e o Palácio Queimado (velho), a Capela e a Horta Real, casas, lojas, barracas e sobrados diversos, quartéis de infantaria, cavalariças e cocheiras, palheiros, (…) a Ermida de S. Sebastião, pombais e falcoaria constam de longas listas então elaboradas com autos de entrega à Fazenda Nacional, sendo autorizada a arrendá-los ou a dar-lhes qualquer aplicação de onde proviessem vantagens; poucos anos bastaram para que se efectuasse em hasta pública a venda de todos aqueles bens, com excepção da Capela Real, cuja propriedade o Estado conservou.” (in O Paço Real de Salvaterra de Magos – a Corte, a Ópera, a Falcoaria de CORREIA, Joaquim Manuel e GUEDES, Natália Brito Correia).

O Estado já detinha todas as dependências do almoxarifado de Salvaterra de Magos, quando nova catástrofe vem intensificar a destruição do paço régio. O sismo de 1858, com epicentro em Setúbal, provoca estragos no paço quando faz desmoronar o paredão da fachada do edifício.

Entre os anos de 1862 e1863, as ruínas do Paço Real de Salvaterra de Magos são arrematadas em hasta pública, assinalando o triste fim daquele que foi um importante monumento a nível nacional.

Fonte: https://cmsm-paco-real-salvaterrademagos.blogspot.com/p/paco-real_28.html

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