quarta-feira, 5 de junho de 2024

António Conti, amigo e moço de guarda-roupa do Rei D. Afonso VI

António Conti foi amigo e moço da câmara e moço guarda-roupa do Rei Afonso VI de Portugal. António Conti tinha um irmão, João Conti.


Relativamente a António Conti, as informações disponíveis são parcas, limitando-se as mesmas a breves referências existentes nas fontes coevas, maioritariamente, revestidas de partidarismos e de opiniões controversas. Também a nível de arquivo, os dados documentais não nos permitem elaborar um esboço concreto da ação do italiano junto do rei, apesar das importantes concessões régias con-templadas na Chancelaria Régia de D. Afonso VI denotarem o grande destaque que, tanto António como João Conti, tiveram no mundo cortesão português tardo-Seiscentista. 


Mas, e de acordo com o manuscrito editado por Eduardo Brazão, era junto à capela real do palácio da Ribeira que um certo António Maria Conti possuía uma boutique de fitas e de adornos femininos, onde ganhava o suficiente para sustentar o pai, do mesmo nome, a mãe, que se chamava Antonieta Maria e outros irmãos, todos moradores numa loja que existia dentro do pátio da capela.


Assim, e estando próximo da Corte e da Família Real, a influência do mercador ter-se-ia feito sentir ainda “nos primeiros anos do príncipe”, ou seja, numa idade em que o D. Afonso seria muito jovem e cujas convivências, certamente, se limitariam aos oficiais, damas e criados da Casa da rainha D. Luísa.


Aliás, a Catastrophe de Portugal refere, especificamente que os con-tactos entre o rei e o italiano teriam ocorrido, com alguma imprecisão, pouco antes de o príncipe aprender a manejar as armas, neste caso, antes de perfazer os catorze anos30. É, pois, provável, que a sua entrada no paço não tenha sido estranha à regente, como, eventualmente, deve ter sido consentida, em vida do falecido D. João IV.


Porém, o inicio desta relação é relatada em duas versões distintas mas que não se excluem. Vejamos.Uma diz-nos que, durante as horas da sesta, depois de jantar - tempo que era aproveitado pelo rei para os seus momentos de lazer -, D. Afonso tinha por hábito brincar nos corredores do paço31, cujas janelas ficavam próximas do pátio da capela, onde se agrupavam grupos de rapazes a jogar às “pedradas”. Este antigo costume português, proibido por alvará de Filipe III de Castela (II de Portugal), mas que em tempo de guerra exercitava os ânimos dos jovens soldados, era muito apreciado pelo príncipe que, sempre que lhe era permitido, assistia com atenção aos combates que então se realizavam no pátio. Ao que parece, o rei era, inclusive, adepto de um dos bandos.


Entre os mercadores que vendiam nas tendas que estavam no claustro e que cercavam o seu pátio, havia um chamado António Conti Vintimiglia que “por fazer lisonja a el rei, ajudava e applaudia” o grupo de rapazes que, no duelo de apedrejamento, era apoiado pelo príncipe.


Tal demonstração de solidariedade suscitou o interesse que Afonso despertara pelo convívio com o mercador, ao ponto de o jovem fazer “logo com elle alguas demonstrações de benevolência” quando Conti com ele vinha falar a um lugar do paço chamado «Portaria das Damas». Ao fim de algum tempo o italiano já privava com o monarca, conquistando a sua confiança através da “oferta de fundas de seda, facas douradas e outras biguterias desta sorte”, que muito serviam para desenvolver no soberano “afectos [...] que costumam tomar os apetites desordenados”.


A segunda, conta-nos que, António Conti foi introduzido no paço pelo desejo de D. Afonso fazer um presépio, muito ao gosto da época, pois “procurandose pessoa que lhe satisfizesse este appetite, um reposteiro, suggerido por um tendeiro da cappella, inculcou um filho d’este chamado Antonio de Conti, o qual com effeito se introduziu pela manufactura do presépio, e por trazer a el-rei bonecos, e outras cousas que agradam n’aquella idade: e como el-rei gostava de homens de baixa esphera, se agradou de modo de António de Conti, que não podia passar sem a sua conversação, e o ia buscar pelas portarias”.


É verosímil pensar que algum oficial do paço que se relacionava com a família desses mer-cadores pudesse ter fomentado essa aproximação. Imagem viva do funcionamento dos sistemas de clientela e de patrocínio, através dos quais se alcançavam as mercês e graças régias. Não esqueçamos que o poder do rei emancipava, legitimava e enobrecia todos aqueles que estavam próximos da sua esfera taumaturga e é neste sentido que a relação dos membros da família Conti à Corte Brigantina deve ser entendida.


De acordo com grande parte das fontes, António Conti nasceu em Lisboa, oriundo de uma família nobre italiana de Vintimiglia, cidade da República de Génova, não obstante essa ascendência ser contestada por alguns autores.


O conde de Ericeira, por exemplo, refere que, querendo esconder a humildade do seu nascimento para desta forma “representar no teatro do mundo o papel de valido de hum poderoso Rey”, António indicou ter descoberto a nobreza do seu sangue, provando-o com testemunhos, sob o pretexto de ser descendente da Casa de Vinti-miglia, “família nobilíssima do Reyno de Sicilia”.


Esta pretensão permitiu-lhe granjear mais as atenções do monarca que lhe concedeu o foro de fidalgo em 1659.


Para além de António, outros membros da sua família beneficiaram com a «amizade» da-quele à Casa Real, nomeadamente, João Conti, seu irmão, que foi introduzido no paço da Ribeira sobre vários pretextos como observam alguns autores coevos.


Pouco a pouco, os laços de «amizade» e de «familiaridade» foram-se estreitando entre o mercador e o rei que se agradava das “dadivas e affectos” demonstrados pelo seu mais recente «amigo». É possível que a solidão e a melancolia sentidas por um jovem doente e enfermo, li-mitado, a nível moral e jurisdicional, pela normas da Casa Real, fossem propícias para a transpa-rência das suas fragilidades, quer físicas quer psicológicas, e que sabiamente foram aproveitadas pela astúcia e ambição de António Conti.


A sua presença em momentos de maior debilidade do rei foram, com toda a certeza, cruciais para atingir o afeto e a confiança régia.


O companheirismo de ambos foi crescendo de tal forma que o rei o procurava constan-temente junto às portas do palácio, nomeadamente no «Pateo do Leão», onde tinha lições de equitação, esperando que António Conti, juntamente com o seu irmão e outros moços, entre mouros e negros da estrebaria, entrassem através de “hum corredor baixo, que vem a sair ao terreiro do Paço, e ao pateo da Capella [...] nas horas mais solitarias”. Horas solitárias para praticar, segundo Correia de Lacerda, os mais atos vis.


Se já desde finais de 1659 o italiano deixara a ocupação da tenda da Capela, habitando praticamente o paço, após atribuição de Casa própria ao monarca, em 1660, Conti, passara a privar diariamente com D. Afonso VI, desde o seu acordar ao seu deitar. Sendo investido com o ofício de moço de guarda-roupa, passou a granjear todas as suas atenções régias, sobrepondo--se, em importância e proximidade, a D. Francisco de Faro.


Foi-lhe concedido, inclusive, um aposento imediato ao do rei e por ali saia todas as noites com ele e com o seu irmão.


Mais informações aqui.

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