quinta-feira, 3 de março de 2022

Entrevista com a Marquesa de Unhão


Na Revista "ABC" de 2 de Fevereiro de 1922, o jornalista João D'Alpains fez uma entrevista à Sr.ª Marquesa de Unhão, a última Dama da Rainha D. Maria Pia, de que passo a transcrever algumas passagens mais significativas:

" No sue pequeno palácio da Rua da Vinha, a Sr.ª Marquesa de Unhão, que foi íntima da casa Real e que foi a última Dama da Rainha Senhora Dona Maria Pia, acede receber-nos, quando seu costume era não falar a jornalistas em coisas do passado, aquele passado que é na sua vida a maior saudade."


" Olhamos distraidamente uma fotografia que está junto de nós. S. M. a Rainha-Mãe e o Príncipe D. Luís Filipe, tendo apenas meses de idade. A expressão daquela criança enche-nos de tristeza. Ele está a sorrir, descuidado, ainda inconsciente, ainda sem pensar... naquela idade os homens deviam-lhe ser diferentes, diferentes daqueles, que, numa trágica tarde o derrubaram a tiro - ele era bom e tinha grande paixão pela sua terra. Noutro quadro, El-Rei D. Carlos, vestindo de caçador. Expressão sem ódio, expressão feliz, julgando bem todas as pessoas que o rodeavam, que privavam com ele.""



A Marquesa de Unhão


"A revolução apanhou-me em Sintra - revela a Sr.ª Marquesa de Unhão - S. M. a Rainha D. Maria Pia vivia muito adoentada nos últimos tempos; não recebia ninguém, a não ser pessoas que estavam de serviço. Sofria de uma grande tristeza, desde o assassinato do Rei e do Príncipe. Ela adorava o Príncipe. Começou a miná-la uma tristeza enorme, muitas vezes não queria ver ninguém, viviam mais consigo, acompanhava-a sempre a sua nostalgia. Sua Majestade era uma pessoa muito nervosa, irrequieta. Antigamente, não; vivia, sempre alegre, imensamente inteligente, era o desejo maior de todos que a rodeavam. Naquele dia da revolução, quando disseram para fugir, S. M. revoltou-se, que não fugiria, que antes tomaria o caminho de Lisboa. S. M. nunca sentiu medo. Ela sabia que o lugar do Rei era nos lugares de perigo e queria estar mais perto, mais junto dele."


-"Quando chegámos a Mafra ainda S. M. quis voltar para Lisboa.
Era Lisboa que ela desejava; nós não devíamos ter abandonado Lisboa; quase todos os boatos eram falsos e depois restava-nos o País inteiro. Sá a bordo é que soubemos que não íamos para o Porto! Sempre julgámos que, embarcando em Mafra, seguiríamos para o norte de Portugal! Não fizemos bagagem, S. M. tinha uma mala de mão, coisas mais necessária e eu, outra. Nenhuma das Senhoras Rainhas de Portugal desejava sair; custou-lhe muito a dar esse passo. Muito! A bordo  todos tinham a certeza que aquela retirada era por pouco tempo,  que nos chamariam logo. S. M. a Rainha Maria Pia tinha sempre a impressão que a estavam a chamar - que voltaria em breve. Nunca julgou morrer no seu exílio, longe de Portugal que Ela tanto amou"

-"Vivia cheia de saudades e recordava-se de tudo, pensava em tudo. Mais tarde , pedi um mês de licença, pretendia voltar a Portugal para tratar de questões particulares. Não estando em minha casa, perguntei a S. M. se deveria trazer as malas para Lisboa. S. M. disse-me que sim e depois chamou-me. «É melhor lavá-las, porque assim como nos expulsaram rapidamente podem chamar-nos».

-"Não assistiu, Sr.ª Marquesa, à morte de S. M.?"

-"Não! Estava em Portugal. Tive imenso desgosto. Se tivesse adivinhado..."

A Senhora Marquesa, antes de se retirar tem mais uma frase:

-"S. M. nunca se meteu na política. Foi mau! A Rainha-Mãe tinha perfeita noção de todos os problemas e conhecia as pessoas. Adivinhava se elas valiam ou não, pela expressão do seu rosto..."


Fonte: http://coisasdeantigamente-marr.blogspot.com/2013/06/d-maria-pia-1847-1911.html

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