sábado, 3 de agosto de 2019

Carta do Infante D.Manuel à sua aia, a D.Carlota Campos


Paço de Vila Viçosa
2 de Março 1895


Minha querida Dama

 

Se está melhor e se anda bem nas muletas. Tenho umas pedras lindas, uma parece estar cheia de diamantes, outra tem prata e outra que brilha muito e parece ter ferro. Dóe um dente à Calita? Fomos hoje dar um grande passeio, com a Maria de Menezes e a Carlota. Vimos rios, rios e lagos, fomos pela estrada do Alandroal.

Faz-me muita falta a Daminha, e tenho pena que esteja doente. No passeio lembrei-me que havia de escrever à Daminha.

Um verso.

Um boneco de papelão.

Vai ao malão.

E acha um melão.

Sonetos, petas.

Tenho estado asim, assim.

Mas agora vou estar melhor, foi o conselho que o mano me deu. Tenho uma pedra para dar à Dama. A Patrocínio, teve muita pena de não vir. Daminha, o Marcô não morreu. O mano cortou as cartas espanholas dêle. Temos um vinho óptimo branco de Vila Viçosa. Agora tenho pouca conta na idea. Vi um rebanho de ovelhas, fui ter com êle, o que havia eu fazer, ó Daminha? Fui ter com êle. Todas as pedras, todas têm cristal.

Adeus Daminha, até àmanhã, que lhe vou escrever.

Seu amiguíssimo

D.Manuel

Do livro: O Rei Saudade, de José Dias Sanches

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