sábado, 29 de fevereiro de 2020

Consortes dos Reis de Portugal - Fernando II

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Fernando II (nome completo em alemão: Ferdinand August Franz Anton von Sachsen-Coburg und Gotha; Viena, 29 de outubro de 1816 – Lisboa, 15 de dezembro de 1885) foi o segundo marido da rainha D. Maria II e Príncipe Consorte de Portugal, entre de 1836 até 1837, altura em que se tornou Rei Consorte de Portugal e dos Algarves com o nascimento do primeiro filho, como previsto na constituição. Era o filho mais velho do príncipe Fernando de Saxe-Coburgo-Gota e da sua esposa, a princesa Maria Antónia de Koháry.


Fernando casou-se com D. Maria em 1836, tornando-se príncipe consorte de Portugal. Em conformidade com a lei portuguesa da época, D. Fernando apenas seria rei com a sua esposa após o nascimento do seu primeiro filho, que nasceria um ano depois, o futuro rei D. Pedro V.


Apesar de monarca iuris uxoris, com direito a título e numeração próprios, e de comandante supremo do Exército, dignidades atribuídas a D. Fernando II, a Carta Constitucional reservava as funções políticas de Chefe de Estado para a Soberana, sua esposa. D. Maria II morre em 1853, terminando igualmente o reinado de D. Fernando II. No dia em que enviuvou prestou juramento como Regente do Reino, exercendo estas funções até à maioridade de D. Pedro V em 1855.


Como amante das belas-artes, focou-se durante toda a sua vida nas artes, o que lhe valeu o cognome de o Rei Artista.


Família:


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Foi o primogénito do príncipe Fernando de Saxe-Coburgo-Gota, irmão do duque Ernesto I e do rei Leopoldo I dos Belgas, e da sua esposa, Maria Antónia de Koháry. Teve três irmãos mais novos: Augusto, Vitória e Leopoldo.


Durante a infância o príncipe cresceu em várias terras pertencentes à sua família na actual Eslováquia e nas cortes austríaca e germânica.


Rei de Portugal:


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Em 1835, como D. Maria II enviuvou meses depois do seu primeiro casamento com o príncipe Augusto de Beauharnais, D. Fernando foi escolhido para novo esposo da soberana.


As negociações do casamento foram dirigidas por D. Francisco de Almeida Portugal, Conde de Lavradio, tendo o contrato matrimonial sido assinado em 1 de Dezembro de 1835, com o barão de Carlowit em representação do duque reinante de Saxe-Coburgo, e o barão de Stockmar em representação do príncipe Fernando, seu pai.


A 1 de Janeiro de 1836, casa-se com D. Maria II por procuração, e assina o decreto nomeando D. Fernando marechal-general do Exército, posto reservado ao próprio Rei, na sua função de Comandante Supremo do Exército.


D. Fernando partiu de Coburgo, atravessou a Bélgica, e embarcou em Oostende para Lisboa, onde chegou a 8 de Abril. A cerimónia do casamento realizou-se no dia seguinte. A nomeação de D. Fernando enquanto marechal-general gerou polémica entre os liberais mas, uma vez que essa dignidade já houvera sido conferida ao príncipe D. Augusto, o governo não podia deixar de comprometer-se com a rainha.


De acordo com a lei Portuguesa, enquanto marido da rainha reinante, D. Fernando só poderia receber o título de rei após o nascimento do primeiro herdeiro (foi por este motivo que o primeiro marido da rainha, Augusto de Beauharnais, nunca foi rei) D. Fernando foi, portanto, príncipe de Portugal até ao nascimento do futuro D. Pedro V em 1837.


Foi eleito, a 4 de Maio de 1836, presidente da Academia Real das Ciências.


D. Fernando evitou envolver-se no panorama político, preferindo dedicar-se às artes. Por ocasião da fundação da Academia de Belas-Artes de Lisboa a 25 de Outubro de 1836, D. Fernando e a rainha declaram-se seus protectores.


Após uma visita ao Mosteiro da Batalha (que se encontrava abandonado, depois das extinção das ordens religiosas), D. Fernando passa a dedicar parte das suas preocupações às causas de cariz nacionalista, como a protecção do património arquitectónico português edificado, tendo também impulsionado aspectos culturais e financeiros, a par do estímulo à acção desenvolvida por sociedades eruditas, como projectos de restauração e manutenção respeitantes não só à vila da Batalha, mas também ao Convento de Mafra, Convento de Cristo, em Tomar, ao Mosteiro dos Jerónimos, Sé de Lisboa, e Torre de Belém.


Como amante de pintura que era, colaborou com algumas gravuras de sua autoria, na Revista Contemporânea de Portugal e Brasil (1859-1865).


Segundo casamento:


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Em 1869, D. Fernando casa-se pela segunda vez, morganaticamente, com Elise Hensler, depois tornada Condessa d'Edla, que era uma cantora de ópera e mãe solteira, a quem viria a deixar como herança o Palácio da Pena, cuja construção foi da sua inteira responsabilidade, sendo entregue ao engenheiro alemão Wilhelm Ludwig von Eschwege que realizou projecto.


Tronos grego e espanhol:


Em 1862, depois de uma revolta na Grécia contra o rei Oto I, D. Fernando II foi convidado a subir ao trono grego, proposta que recusou.


Em 1868, com a revolução que expulsou a rainha Isabel II da Espanha e toda a sua família, e o governo provisório espanhol, não se desejando estabelecer uma república, ofereceram a coroa a D. Fernando II, então com quarenta e nove anos, proposta que D. Fernando também rejeitou.


Morte:


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Pouco antes da sua morte D. Fernando começou a sofrer a dolorosa enfermidade a que não resistiu, o seu corpo jaz ao lado de D. Maria II, sua primeira esposa, no Panteão Real da Dinastia de Bragança, no Mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa.


Títulos e Estilos:



  • 29 de outubro de 1816 – 12 de novembro de 1826: "Sua Alteza Sereníssima, Príncipe Fernando de Saxe-Coburgo-Saalfeld"

  • 12 de novembro de 1826 – 1 de janeiro de 1836: "Sua Alteza Sereníssima, Príncipe Fernando de Saxe-Coburgo-Gota"

  • 1 de janeiro de 1836 – 16 de setembro de 1837: "Sua Alteza Real, o Príncipe Consorte"

  • 16 de setembro de 1837 – 15 de novembro de 1853: "Sua Majestade Fidelíssima, o Rei"

  • 15 de novembro de 1853 – 15 de dezembro de 1885: "Sua Majestade Fidelíssima", o Rei D. Fernando II"


Descendência:



  • Pedro V de Portugal

  • Luís I de Portugal

  • João, Duque de Beja

  • Maria Ana de Portugal

  • Antónia de Portugal

  • Fernando de Portugal

  • Augusto, Duque de Coimbra

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Vital Ferreira Fontes, moço de sala na Casa Real

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Depois de servir como soldado, Vital Ferreira Fontes entrou na casa real, em 1886 como moço de sala, no reinado de D. Luís, por altura do casamento de D. Carlos com D. Amélia, e manteve-se em serviço até 1936.


Vital Fontes nasceu no dia 6 de novembro de 1861, no concelho da Sertã, distrito de Castelo Branco, e morreu aos 94 anos, numa "casa modesta dos Telheiros da Ajuda", em Lisboa.


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Vital Fontes, Servidor de Reis e de Presidentes. Da Monarquia à República. Do Sr. D. Luís ao Sr. General Carmona. Compilação de Rogerio Perez, Lisboa, Editora Marítimo-Colonial, Lda., 1945.


Fonte: https://www.sabado.pt/  https://www.noticiasaominuto.com/

Consortes Reais de Portugal - Augusto de Beauharnais

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Augusto Carlos Eugénio Napoleão de Beauharnais (em francês: Auguste Charles Eugène Napoléon de Beauharnais; Milão, 9 de dezembro de 1810 – Lisboa, 28 de março de 1835) foi o primeiro marido da rainha Maria II e Príncipe Consorte do Reino de Portugal de janeiro de 1835 até à sua morte dois meses depois. Foi também o segundo Duque de Leuchtenberg a partir de 1824 e Príncipe de Eichstätt até 1833. Era o filho homem mais velho do príncipe Eugénio de Beauharnais e da sua esposa a princesa Augusta da Baviera.


Família:


Filho do general Eugénio de Beauharnais, enteado de Napoleão Bonaparte e vice-rei de Itália, enquanto este país esteve sob domínio do Império Napoleónico (1804-1814), era neto, pela parte paterna, da Imperatriz Josefina de Beauharnais, a primeira esposa de Napoleão, e pela parte materna do rei Maximiliano I da Baviera.


Era irmão da imperatriz brasileira Amélia de Leuchtenberg, a segunda esposa de Pedro I, e primo do futuro imperador da França Napoleão III.


Educado nos princípios da honra militar pelo pai, Eugénio de Beauharnais, e da moral católica pela mãe, a princesa Augusta Amélia de Wittelsbach. Sua mãe, Augusta Amélia, era filha do Rei da Baviera, Maximiliano I José e da rainha Maria Guilhermina de Hesse-Darmstadt, primeira esposa do rei bávaro. Passou a sua infância e parte de sua juventude na cidade de Munique, residência dos Wittelsbach, a Família Real da Baviera, da qual faziam parte, por sua mãe, que era princesa da Baviera.


Passagem pelo Brasil:


Após o casamento por procuração com dom Pedro I, Amélia insistiu para que o irmão a acompanhasse em sua viagem ao Brasil. Augusto não pretendia aceder ao desejo da nova imperatriz, mas foi estimulado pela mãe a transferir-se para a corte do Rio de Janeiro. Antes de partir, o jovem, que ainda não havia atingido a maioridade, deixou pronto o seu testamento.


Em solo brasileiro, ele passou a residir no Palácio Imperial de São Cristóvão e tornou-se muito próximo do cunhado. Em alvará datado de 5 de novembro de 1829, dom Pedro I concedeu a Augusto, enquanto príncipe de Eichstätt e duque de Leuchtenberg, o direito ao tratamento de Alteza Real em todo o território nacional. Em Carta Imperial datada do mesmo dia, o imperador concedeu-lhe o título de duque de Santa Cruz, também com tratamento de Alteza Real.


Regresso à Europa e casamento com Maria II:


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Quando do exílio de Pedro I na Europa, Augusto voltou para a Baviera para junto dos seus familiares. Depois de reconquistado o trono de Portugal para a rainha Maria II, o príncipe Augusto foi o eleito por D. Pedro I, imperador do Brasil e rei de Portugal como D. Pedro IV, para marido da jovem rainha portuguesa pelas qualidades verificadas durante a sua estada no Brasil, quando acompanhou a sua irmã Amélia, segunda esposa do imperador.


Cumprindo o desejo do cunhado, Augusto casou com a rainha Maria II, enteada da sua irmã, por procuração, a 1 de dezembro de 1834, e por palavras e de presente, na Sé de Lisboa, a 26 de janeiro de 1835.


Por uma daquelas coincidências que as consanguinidades reais do tempo favoreciam, quer a avó de Augusto, a imperatriz Josefina, quer a tia de Maria, a imperatriz Maria Luísa, irmã da imperatriz Maria Leopoldina de Áustria, tinham sido casadas com Napoleão Bonaparte – o que significa dizer que o filho do enteado de Napoleão casou com a filha da cunhada de Napoleão.


Augusto foi marechal do exército português e Par do Reino, tomando assento na Câmara Alta alguns dias após o matrimônio.


Morte:


Augusto morreu no dia 28 de março de 1835, no Palácio das Necessidades, em Lisboa, ao cabo de escassos dois meses de casamento e sem ter chegado a engravidar a soberana. A sua morte repentina e em tão pouca idade gerou grande distúrbio popular em Lisboa, pois corria o rumor de que o príncipe-consorte havia sido envenenado. Contudo, em carta enviada à duquesa Augusta Amélia, a antiga aia dos irmãos, Fanny Maucomble, descreveu a rápida evolução da doença de Augusto:


"... Parece-me que o Príncipe tinha começado a sofrer de uma ligeira dor de garganta sexta-feira dia 20. Não tinha dito nada, não dando importância ao facto. Infelizmente! Vós como eu, tínhamos conhecimento de como ele pouco cuidava da sua saúde ... Domingo saiu por volta das 7 horas para passear e disparar alguns tiros de carabina num pequeno parque ao redor da Ajuda. Fazia muito frio; pois neste país, na primavera as manhãs e as noites são frias e por isso perigosas.


Voltou para o almoço às 10 horas e não disse ainda nada do seu mal da laringe, que o estava atormentando. A 1 hora foi passear com a Rainha num lugar chamado Campo Grande, onde eram realizadas corridas a cavalo. Fazia calor, com um sol muito forte. Ficaram no carro aberto, no mesmo lugar por mais de uma hora a fim de observar as corridas. Ao regressar o Príncipe sofria ainda mais, mas jantou e desejou fazer uma partida de bilhar com a Rainha; no entanto foi obrigado a procurar a cama. Todo mundo o aconselhou de chamar um médico, mas não foi possível convencê-lo. O Conde Mejan e a Imperatriz o pregaram de colocar os pés na água e de lhe aplicar compressas de mostarda. Recusou. Finalmente na segunda-feira ele consentiu em falar com um médico. Este aplicou em primeiro lugar 24 sanguessugas à garganta ..."


"Após diversas outras tentativas e vendo nenhum êxito foram chamados outros médicos. O estado do paciente estava extremamente grave. A noite esteve calma, mas na manhã do dia 28 os médicos chamaram a Imperatriz a fim de inteirá-la de que, infelizmente, não existia mais alguma esperança e que preparasse o espírito da Rainha."


"A Imperatriz providenciou um sacerdote que subministrou os Sacramentos, que recebeu ao meio-dia. Em seguida se despediu com grande coragem de todos, falou longamente com a Rainha e recomendou a mesma à Imperatriz. Pouco depois entrou em agonia e às 2 horas exalou o último suspiro nos braços da Rainha e da Imperatriz, que não o haviam deixado um momento."


"O Príncipe deixou um grande pesar e ontem se realizaram grandes desordens na cidade, pois dizia-se que tinha sido envenenado. Isso obrigou a Imperatriz a mandar fazer, com grande precisão, uma autópsia por três médicos e convocou mais um doutor inglês, um francês e um espanhol, pedindo a opinião de cada um.


Este exame vai provar aquilo que nós todos sabemos, de que a morte do jovem homem foi completamente natural e unicamente causada por não ter curado o mal em tempo. Encontraram a garganta, o esófago e o estômago terrivelmente inflamados... Antes de morrer o Príncipe disse a Mr. Billing que morria tranquilo, mas que estava muito triste de findar sem ter podido fazer alguma coisa pela felicidade da Rainha e de Portugal."


Maria II casou-se em segundas núpcias com o príncipe Fernando de Saxe-Coburgo-Gota.


Jaz no Panteão Real da Dinastia de Bragança, no Mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa.

Rainhas de Portugal - Maria Leopoldina da Áustria

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A Imperatriz Leopoldina, de nome completo Maria Leopoldina da Áustria (Carolina Josefa Leopoldina Francisca Fernanda de Habsburgo-Lorena, Viena22 de janeiro de 1797 — Rio de Janeiro, 11 de dezembro de 1826), foi imperatriz consorte do Brasil, a primeira esposa de Dom Pedro I. Mãe de Maria da Glória, que viria a ser Dona Maria II, rainha de Portugal, e de Dom Pedro II, o futuro imperador do Brasil. Avó da Princesa Isabel e da Princesa Leopoldina do Brasil, de Saxe-Coburgo-Gota e Duquesa de Saxe.


Maria Leopoldina (Carolina Josefa Leopoldina Francisca de Habsburgo-Lorena), nome que passou a assinar quando chegou ao Brasil, nasceu no Palácio de Schönbrunn, em Viena, Áustria, no dia 22 de janeiro de 1797. Filha do imperador Francisco I da Áustria e sua segunda esposa a imperatriz Maria Teresa de Nápoles e Sicília. Órfã de mãe aos oito anos de idade foi criada por sua madrasta Maria Luísa da Áustria.


O casamento com D.Pedro:


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Em 1816, depois de demoradas negociações, a Arquiduquesa fora escolhida para esposa de Dom Pedro, filho de Dom João VI e de Carlota Joaquina de Bourbon e o herdeiro do trono do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarve. O casamento foi celebrado por procuração, em Viena, no dia 13 de maio de 1817, quando Dom Pedro foi representado pelo tio de Dona Leopoldina.


Dona Leopoldina partiu de Viena no dia 15 de agosto, acompanhada de uma comitiva de 28 pessoas, entre elas, artistas e cientistas como o botânico Carl von Martius e o naturalista Johann von Spix. O desembarque se deu no Rio de Janeiro, no dia 5 de novembro de 1817. No dia seguinte o casal recebeu a benção nupcial na Igreja de Nossa Senhora do Carmo. Segundo o historiador Alberto Rangel, o herdeiro da Coroa gostaria de ter escolhido uma companheira mais bonita, mas Dona Leopoldina estava encantada com seu marido.


Na vida em comum, o casal não mostrou bom entrosamento, mas Dona Leopoldina fazia tudo para atraí-lo e, sabendo de seu interesse pela música, tratou de aproveitar isso como disse em uma carta à sua tia, a Grã-Duquesa de Toscana: “Ele toca muito bem quase todos os instrumentos, eu o acompanho ao piano e, assim, tenho a satisfação de estar junto da pessoa amada.” Os saraus musicais no Paço de São Cristóvão eram frequentes. Dona Leopoldina acompanhava o príncipe nos demorados passeios a cavalo que ele fazia pelos arredores da Quinta da Boa Vista.


Em 1819, nasceu a primeira filha do casal, Maria da Glória, que viria a ser Dona Maria II, rainha de Portugal.. Nos anos seguintes mais seis filhos nasceram, entre eles, Pedro, o futuro imperador do Brasil. No dia 26 de abril de 1821, o imperador Dom João VI voltou para Portugal, atendendo às reivindicações decorrentes da Revolução Liberal do Porto. Dom Pedro foi então nomeado Príncipe-Regente.


Com os vários problemas políticos da Regência, Dona Maria Leopoldina permanece fiel a um ideal religioso de submissão às vontades do marido e o apoiou ao longo das delicadas manobras que conduziram à Independência do país, em 1822. Mas as cartas que mandava às pessoas queridas na Europa revelam que ela via com grande receio o ímpeto liberal que despontava entre alguns partidários da Independência.


A melancolia e a morte:


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Duas semanas antes de proclamar a Independência do Brasil, Dom Pedro conhece a paulista Domitila de Castro Canto Melo, aquela que abalaria o seu casamento e a sua reputação na corte. Fazendo vir a amante para o Rio a apresentou à corte e conferiu-lhe o título de “Marquesa de Santos”. A ligação escandalosa do marido com Domitila (ou Titília, como ele a chamava na intimidade) deixava a imperatriz humilhada. A filha que teve com Domitila – na mesma época em que a imperatriz dava a luz outra criança – recebeu do pai o nome de Isabel Maria de Alcântara e o título de Duquesa de Goiás. Em carta à irmã que morava na Europa, Maria Leopoldina desabafa: “O monstro sedutor é a causa de todas as desgraças”. Solitária, isolada, devotada apenas a parir um herdeiro para o trono – o futuro Dom Pedro II nasceria em 1825 e Leopoldina tornava-se cada vez mais depressiva.


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Maria Leopoldina da Áustria faleceu no Palácio de São Cristóvão, na Quinta da Boa Vista, Rio de Janeiro, no dia 11 de dezembro de 1826. Foi sepultada no Convento da Ajuda, na atual Cinelândia. Quando o convento foi demolido, em 1911, os restos mortais foram transladados para o Convento de Santo Antônio. Em 1954, os restos mortais foram levados para a cripta da Capela Imperial, no Monumento à Independência, em São Paulo, às margens do Riacho Ipiranga.


Descendência:


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  • Maria II de Portugal (4 de abril de 1819 – 15 de novembro de 1853)

  • Miguel, Príncipe da Beira (26 de abril de 1820)

  • João Carlos, Príncipe da Beira (6 de março de 1821 – 4 de fevereiro de 1822)

  • Januária do Brasil (11 de março de 1822 – 13 de março de 1901)

  • Paula do Brasil (17 de fevereiro de 1823 – 16 de janeiro de 1833)

  • Francisca do Brasil (2 de agosto de 1824 – 27 de março de 1898)

  • Pedro II do Brasil (2 de dezembro de 1825 – 5 de dezembro de 1891)

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Real Gazeta do Alto Minho, N.º 22



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Já está disponível a Real Gazeta do Alto Minho, N.º 22

Neste número pode ler:



- Entrevista a Dom Francisco van Uden

- O Último Cavaleiro Português da Ordem da Jarreteira, por Miguel Villas-Boas

- Leal Freire, por António Moniz Palme

- Jorge Portugal da Silveira, por Manuel Cardoso

- A Indelével supremacia do Rei, por António de Souza-Cardoso

- Novo Portugal sem Minas, por Madalena Pires de Lima

- O Surrealismo em Moledo do Minho, por Gonçalo de Sampaio e Melo

- Transição para o Regime Monárquico no Século XXI, por Tomás A. Moreira

- Um Visconde, Um Rei e um Arquitecto na realização de um sonho..., por Leopoldo Frederico Drumond Ludovice

- Jantar dos Conjurados

- Prémio Gonçalo Ribeiro Telles

Pode ver aqui.

Imagem da Infanta D.Antónia de Portugal

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quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Biografias - Ana de Jesus Maria de Bragança

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Ana de Jesus Maria de Bragança (de seu nome completo: Ana de Jesus Maria Luísa Gonzaga Joaquina Micaela Rafaela Sérvula Antónia Francisca Xavier de Paula de Bragança e Bourbon, Mafra, 23 de Outubro de 1806 — Roma, 22 de Junho de 1857) foi a última filha de D. João VI, rei de Portugal e imperador do Brasil, com a sua consorte D. Carlota Joaquina de Bourbon.


Nasceu no Palácio Nacional de Mafra.


D. Ana de Jesus Maria teve que partir, em 1808, para o Brasil, juntamente com a família real portuguesa e nobreza portuguesa, em função da invasão napoleónica em Portugal. Tal episódio é conhecido com a transferência da corte portuguesa para o Brasil.


No dia 5 de dezembro de 1827, no Palácio Real de Queluz, D. Ana de Jesus Maria desposou o general, político, maçon e nobre D. Nuno José Severo de Mendoça Rolim de Moura Barreto, então titulado como 9.º conde de Vale de Reis e 2.° marquês de Loulé (mais tarde, ele tornar-se-ia 1.º duque de Loulé). D. Nuno José foi, por várias vezes, primeiro-ministro de Portugal.


O casal teve cinco filhos.


D.Ana de Jesus faleceu no dia 22 de junho de 1857 em Roma. Foi sepultada na Igreja de Santo António dos Portugueses em Roma.

Biografias - Maria da Assunção de Bragança

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Maria da Assunção de Bragança (de seu nome completo: Maria da Assunção Ana Joana Josefa Luísa Gonzaga Francisca de Assis Xavier de Paula Joaquina Antónia de São Tiago de Bragança e Bourbon; Queluz, 25 de Junho de 1805 – Santarém, 7 de Janeiro de 1834) foi uma filha de D. João VI, rei de Portugal e imperador do Brasil, com a sua consorte D. Carlota Joaquina de Bourbon.


Nasceu em Queluz a 23 de julho de 1805, sendo baptizada a 15 de agosto seguinte na capela real do mesmo palácio, pelo deão da Patriarcal, António Xavier de Miranda, que oficiou pelo impedimento do patriarca de Lisboa D. José Francisco de Mendonça. Na pia baptismal recebeu os nomes: D. Maria da Assunção Ana Joana Josefa Luísa Gonzaga Francisca de Assis Xavier de Paula Joaquina Antónia de S. Tiago de Bragança e Bourbon. 


A infanta D. Maria de Assunção era grã-cruz da Ordem de Nossa Senhora da Conceição e dama da de Santa Isabel. Faleceu em Santarém a 7 de janeiro de 1835. Entre os seus irmãos, foi sempre o seu dilecto o infante D. Miguel, e tão viva se tornou a afeição que os unia que as paixões políticas do tempo não perderam o ensejo de propalar a esse respeito boatos escandalosos. D. Maria da Assunção foi quem se conservou sempre ao lado de D. Miguel, quando este se apossou da coroa. Diz-se que reprovava as medidas violentas e sanguinárias a que D. Miguel se deixara arrastar, mas não tinha força, nem influência bastante para lhe fazer seguir outro caminho. Quando os constitucionais ocuparam Lisboa, a infanta deixou a capital, e retirou-se para Santarém com as tropas miguelistas, onde faleceu vitima dum ataque de cólera-morbo, epidemia que se havia declarado em Portugal.


Foi primeiramente sepultada na Igreja do Santíssimo Milagre em Santarém, mas em seguida foi transladada para o Panteão da Dinastia de Bragança no Mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa.


Fonte: http://www.arqnet.pt/dicionario/mariaassuncao.html

Biografias - Isabel Maria de Bragança, regente de Portugal

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Isabel Maria de Bragança nascida Isabel Maria da Conceição Joana Gualberta Ana Francisca de Assis Xavier de Paula de Alcântara Antónia Rafaela Micaela Gabriela Joaquina Gonzaga de Bragança e Bourbon (Lisboa, 4 de julho de 1801 — Lisboa, 22 de abril de 1876) foi uma infanta de Portugal. Serviu como regente do país por um período de quase dois anos.


A infanta D.Isabel era a quarta filha mulher de D. João VI e de sua consorte, D. Carlota Joaquina de Bourbon.


Em 1808, com apenas sete anos de idade, D. Isabel Maria teve que partir com o resto da família real portuguesa para o Brasil, em função da invasão napoleônica em Portugal.


No dia 6 de março de 1826, D. João VI, doente, nomeou uma regência presidida pela infanta D. Isabel Maria, de vinte e cinco anos, a qual vigoraria, mesmo com a morte do rei, até que o legítimo herdeiro e sucessor da Coroa aparecesse. Ela foi regente de Portugal até 26 de fevereiro de 1828. D. João VI morreu quatro dias depois do decreto.


Além de D. Isabel Maria, faziam parte do chamado Conselho de Regência o cardeal-patriarca D. Patrício da Silva; o 6.° Duque de Cadaval; o 1.° Marquês de Valada; e o Conde de Arcos. Na qualidade de adjuntos, estavam os seis ministros de Estado das diferentes secretarias.


Em 1828, D. Isabel Maria entregou a regência ao tio D. Miguel, que deveria casar-se com a rainha Dona Maria II. Este, por sua vez, juraria a Carta Constitucional de 1826 promulgada por D. Pedro IV. Entretanto, não foi o que aconteceu.


A Carta Constitucional encontrou forte oposição, mostrando-se D. Miguel desfavorável a ela. Em julho do mesmo ano, D. Isabel Maria declarou solenemente:



Começou, assim, o consequente duelo entre o Portugal da Tradição e o Portugal da Revolução. Se o governo venceu, é certo que os desentendimentos continuaram entre as Câmaras e os ministros, mas também devido às manobras da rainha-viúva, D. Carlota Joaquina.


Morreu solteira em Benfica, nos arredores de Lisboa, e o seu corpo foi sepultado em São Vicente de Fora. Dedicou-se em seus últimos anos à Igreja Católica.

João de Sousa Carvalho, professor do Rei D.João VI

João de Sousa Carvalho (Estremoz, 22 de fevereiro de 1745 - Alentejo, 1745 - 1799/1800) foi um compositor e músico português.


João de Sousa Carvalho, filho de Paulo de Carvalho e de Ana Maria Angélica, entrou com 8 anos, a 23 de Outubro de 1753, para o Colégio dos Santos Reis Magos em Vila Viçosa. Mandado a Nápoles pela Coroa, ingressou com Jerónimo Francisco de Lima (1741-1822) no Conservatório di Sant'Onofrio a Capuana, em Nápoles, a 15 de Janeiro de 1761. A sua primeira ópera, La Nitteti, sobre libreto de Pietro Metastasio, representou-se em Roma no Teatro Delle Dame no Carnaval de 1766. Também a oratória Isacco figura del Redentore, que data da mesma época, deve ter sido cantada em Itália. Regressou a Portugal presumivelmente em 1767, dado que assinou o Livro das Entradas da Irmandade de Santa Cecília a 22 de Novembro do mesmo ano. Foi nomeado professor de contraponto pelo menos em 1769 e, mais tarde, talvez em 1773, Primeiro Mestre de Capela do Seminário da Patriarcal. Em 1778, João de Sousa Carvalho sucedeu a David Perez (1711-1778) como professor dos Infantes e compositor da Real Câmara, com vencimento mensal de 40$000 réis e direito a usar carruagem, passando a controlar todo o aparelho de produção músicoteatral da Corte.


Foi profesor do futuro Rei João VI.


Desde esse ano até 1789, com exceção de 1786 e 1788, cantaram-se novas obras suas (com inúmeras repetições) no Palácio da Ajuda, Palácio de Queluz e Palácio da Ribeira, sendo 10 serenatas - género afim de ópera, mas sem componente cénica - e duas óperas (Testoride argonauta, dramma in 2 atti, 1780, e Nettuno ed Egle, favola pastorale, 1785). Morreu no Alentejo em 1798.

Miguel Franzini, professor dos príncipes D. José e D. João (futuro D.João VI)

Miguel Franzini (Veneza, ? — Coimbra, 1810), originalmente Michele Franzini, foi um matemático e professor da Universidade de Coimbra.


Miguel Franzini foi natural de Veneza, vindo para Portugal a convite do marquês de Pombal, quando em 1772 se reformou a Universidade de Coimbra.


Foi lente da Faculdade de Matemática da Universidade de Coimbra. Por decreto de 9 de Outubro de 1772 recebeu o grau de doutor e foi incorporado na Faculdade de Filosofia da mesma Universidade.


Exerceu o cargo de professor dos príncipes D. José e D. João, este mais tarde rei D. João VI. Em 1793 obteve permissão para visitar a Itália, regressando depois a Coimbra. Faleceu em 1810, de idade muito avançada.


Foi pai do militar e político Marino Miguel Franzini.

Manuel do Cenáculo, professor do Príncipe D.José e do Rei João VI

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Manuel do Cenáculo de Vilas-Boas, ou simplesmente Manuel do Cenáculo, nascido Manuel de Vilas-Boas Anes de Carvalho (Lisboa, 1 de Março de 1724 – Évora, 26 de Janeiro de 1814) foi religioso franciscano, Bispo de Beja e Arcebispo de Évora.


Filho de José Martins, de Constantim, Vila Real, e de sua mulher Antónia Maria, de Lisboa (de origens modestas), professou no Convento da Ordem Terceira de São Francisco em Lisboa, a 25 de Março de 1740. Em 1749 doutorou-se em Teologia na Faculdade de Teologia da Universidade de Coimbra, a onde veio a lecionar (1751–1755), tendo integrado a Junta Reformadora da Universidade. Nesta última desempenhou importante papel na reforma do ensino naquela instituição como Opositor e Lente, estudando ao mesmo tempo com grande empenho as línguas grega, árabe e siríca.


Foi indicado à presidência da Real Mesa Censória pelo Marquês de Pombal, (a quem sugeriu a criação de uma biblioteca nacional) tendo sido nomeado deputado em 21 de Abril de 1768 e também sido indicado pelo rei, D. José I, como confessor do seu neto herdeiro, o Príncipe D. José, em 7 de Dezembro de 1768. Também foi professor do futuro rei João VI de Portugal.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Ópera do Tejo

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O palco da Ópera do Tejo no dia da sua inauguração, 31 de Março de 1755. A ópera em cena era Alessandro nell'Indie, de Perez.


Ópera do Tejo ou Real Casa da Ópera era um faustoso teatro de corte, em Lisboa, Portugal. Foi inaugurado em 31 de março de 1755 e destruído pelo grande terramoto de 1 de novembro do mesmo ano. O teatro estava localizado no centro histórico de Lisboa, junto ao rio Tejo, na zona da Ribeira das Naus, anexo ao antigo Paço da Ribeira.


O projecto fora encomendado por D. José I ao arquitecto italiano Galli da Bibbiena. A sala tinha capacidade para 600 pessoas, distribuídas entre a plateia e 38 camarotes, possuindo ainda uma tribuna para a família real. Segundo relatos, muitos espectadores distraíam-se da cena, porque o seu olhar se deslumbrava com "a riqueza da casa que era branca, e de muito ouro em ornatos". Pensa-se que as obras não estivessem ainda totalmente concluídas quando o teatro ruiu em 1755: as obras de alvenaria teriam começado em Junho de 1752, estando ainda por dourar alguma talha aquando do terramoto.


A inauguração ocorreu com a ópera Alessandro nell'Indie de David Perez, com libreto de Pietro Metastasio, tendo sido enquadrada nas celebrações do aniversário da rainha D. Mariana Vitória. A monumentalidade dos cenários foi complementada por ricos efeitos espectaculares, a cargo do maquinista Petronio Mazzoni. O elenco contou com duas das maiores estrelas internacionais da época, o tenor Anton Raaff, no papel principal, Alessandro, e o castrato Caffarelli no papel do antagonista, Poro.


Foram ainda estreadas duas óperas de Antonio Mazzoni com libretos também de Pietro Metastasio: La clemenza di Tito (6 de junho, por ocasião do aniversário do rei D. José I) e Antigono (16 de outubro). A ópera Artaserse estaria planeada para o início de novembro de 1755. Embora não se conheça um registo exaustivo de todas as récitas (nem todas são mencionadas na Gazeta de Lisboa, pelo que não se sabe ao certo quantas de cada ópera foram apresentadas), sabe-se que tinham lugar às segundas e quintas-feiras.


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As ruinas da Ópera do Tejo após o Terramoto de 1755, por Jacques Philippe Le Bas (1757).

Sérgio da Silva, professor do Rei D.Luís I

Sérgio da Silva foi um notável violoncelista. Foi o primeiro violoncelista da orquesta de S.Carlos. Foi professor do Rei D.Luís I, que era um exímio amador deste insrumento.


Era irmão do pintor Christino da Silva e tio de João Ribeiro Christino da Silva, artista e professor da escola de desenho industrial de Leiria.


Faleceu no dia 5 de janeiro de 1890.


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Notícia da sua morte na revista "O Ocidente".

Conferência sobre o Infante D. Afonso Henriques, pelo Dr. João Vaz

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Fonte: Facebook Paço Ducal de Vila Viçosa

Rei D.Manuel II assinou o Livro de Honra da Escola Politécnica de Lisboa

O Rei D.Manuel II assinou o Livro de Honra da Escola Politécnica de Lisboa, após visita aquele estabelecimento de ensino em 1908.


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domingo, 23 de fevereiro de 2020

Igreja de São Domingos

Igreja de São Domingos em Lisboa, na actualidade, onde se celebrou o casamento real de D. Pedro V com D. Estefânia em 18 de maio de 1858, foto Paulo Nogueira.jpg


A Igreja de São Domingos, do Convento de São Domingos de Lisboa ocupa a metade norte do lado oriental da Praça D. Pedro IV. Sendo limitada a Norte pela Rua Barros de Queirós, a Oeste pelo Largo de São Domingos, a Sul pela Praça da Figueira e a Este pela Rua de Dom Duarte.


Esta igreja sempre esteve ligada à monarquia portuguesa e celebraram-se aqui vários eventos da Família Real Portuguesa.


Foi construída no século XIII, por ordem do rei D. Sancho II tendo a sua primeira pedra sido lançada em 1241. Desde então foi alvo de inúmeras campanhas de obras que lhe alteraram a sua traça medieval por completo. O convento foi acrescentado depois por D. Afonso III e novamente aumentado por D. Manuel I. Foi aqui que começou o Massacre de Lisboa de 1506. O terramoto de 1531 arruinou-o muito, o que obrigou a nova reedificação em 1536.


Neste terramoto, acontecido a 26 de Janeiro, tudo muda. Foram enormes os danos causados pelo sismo. Nas suas espessas paredes abriram-se fendas desde o teto até ao chão, chegando mesmo a ruír em alguns pontos. A sua reabertura foi possível graças às esmolas dos fiéis, às diversas congregações - destacando-se a companhia de Jesus - e de um subsídio proveniente do Rei. Serão conservadas as três naves e todos os seus ornamentos.


A velha Igreja de São Domingos ficava junto à ermida de Nossa Senhora da Escada, também conhecida por Nossa Senhora da Corredoura, por ficar próximo do sítio deste nome, atualmente a Rua das Portas de Santo Antão, e cuja construção datava dos princípios da monarquia.


Era notável a sua riqueza em alfaias preciosas, havendo uma imagem de prata maciça, que saía em procissão num andor do mesmo metal, alumiada por lâmpadas também de prata. As pinturas dos altares, os paramentos, os tesouros, tudo desapareceu durante o terramoto de 1755, salvando-se unicamente a sacristia e a capela-mor, mandada fazer por D. João V e riscada pelo arquitecto João Frederico Ludovice, em 1748 - homem que projectou o colossal Convento de Mafra. A capela-mor, toda de mármore negro, e em cujas colunas se vêem, junto à base, medalhões delicadamente cinzelados, que também avultam sobre os nichos laterais.


Na sua reconstrução, o arquiteto Carlos Mardel (1696-1763) tentou preservar ao máximo o estilo da capela-mor projetada pelo arquiteto João Frederico Ludovice (1676-1752). O arquiteto acrescentou também magnificas colunas de mármore em todos os altares. No que concerne ao coro-alto este é constituído por uma planta retangular sobre o travejamento de madeira, assente em duas majestosas colunas, sendo iluminado pelas três entradas de luz que se encontram num registo superior, assim como pelo óculo da janela principal. A sua reabertura deu-se em 1834 conseguindo albergar mais de 2000 fiéis.


A igreja acabou por ser reconstruída por Manuel Caetano de Sousa, sob direcção de Carlos Mardel. O portal foi reaproveitado e veio da capela real do Palácio da Ribeira, assim como a sacada que encima o portal.


Sendo uma das igrejas mais vastas de Lisboa, nela se realizaram todas as grandes cerimónias religiosas, as exéquias nacionais e reais, assim como as solenidades dos baptizados e casamentos reais.


Foi nesta igreja que se celebrou o casamento do Rei D.Pedro V e da Rainha D.Estefânia no dia 18 de maio de 1858, o do Rei D.Luís I e da Rainha D.Maria Pia de Sabóia em 1862, e o do Rei D.Carlos e da Rainha D.Amélia de Orleães no dia 22 de maio de 1886.


Em 13 de agosto de 1959, um violento incêndio destruiu por completo a decoração interior da igreja, onde constavam altares em talha dourada, imagens valiosas e pinturas de Pedro Alexandrino de Carvalho. A igreja recebeu obras e reabriu ao público em 1994, sem esconder as marcas do incêndio, como as colunas rachadas. Ainda que destruída, é uma igreja que sobressai pela policromia dos seus mármores.


Actualmente é a igreja paroquial da freguesia de Santa Justa e Santa Rufina, em plena Baixa Pombalina e foi classificada como Monumento Nacional. Expõe metade do lenço usado pela Irmã Lúcia no dia 13 de Outubro de 1917 (a outra metade encontra-se no Santuário de Nossa Senhora de Fátima, em Fátima) e ainda o terço usado por Santa Jacinta Marto no mesmo dia.


De traço predominantemente barroco, de planta em cruz latina, tem uma fachada muito simples e o interior, mesmo depois do terramoto e do fogo, evidencia ainda grande beleza e ecletismo. É uma igreja de uma só nave, majestosa. A sacristia e a portaria ainda mostram um pouco de sabor maneirista, denotando as várias campanhas de obras de que foi alvo na sua história. O mesmo estilo pode ser visto nos túmulos e lambris de azulejos de ponta de diamante na sacristia.


Na casa-forte, por trás do altar, existe o túmulo de D. Afonso, filho de D. Afonso III. Numa passagem para a sacristia, com entrada pela Rua da Palma, encontram-se os túmulos do grande pregador dominicano Fr. Luís de Granada (m. 1588) e do reformador da ordem Fr. João de Vasconcelos (m. 1652). Esta igreja tem ainda uma cripta abobadada e dotada de lambris de azulejos, onde está o túmulo de D. João de Castro, capelão de D. João.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Biografias - Maria Francisca de Assis de Bragança

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Maria Francisca de Bragança (Maria Francisca de Assis da Maternidade Xavier de Paula e de Alcântara Antónia Joaquina Gonzaga Carlota Mónica Senhorinha Sotera e Caia; Queluz, 22 de abril de 1800 — Alverstoke, 4 de setembro de 1834) foi uma infanta de Portugal, filha do rei João VI de Portugal e da rainha Carlota Joaquina da Espanha.


Biografia:


Nascida no Palácio de Queluz, D. Maria Francisca de Assis da Maternidade Xavier de Paula e de Alcântara Antónia Joaquina Gonzaga Carlota Mónica Senhorinha Sotera e Caia era a terceira filha do rei D. João VI de Portugal e de sua consorte, Carlota Joaquina de Bourbon. Entre seus irmãos, estava D. Pedro I do Brasil (IV de Portugal) e D. Maria Isabel de Bragança, rainha consorte de Espanha.


Em 1807, com a Primeira invasão francesa de Portugal, D. Maria Francisca deslocou-se com a Família Real para o Brasil.


Em Cadiz, no dia 4 de Setembro de 1816, D. Maria Francisca casou-se por procuração com o infante Carlos de Bourbon. Casou-se em pessoa no dia 22 de Setembro daquele ano, em Madrid. O matrimónio, tal como o de sua irmã D. Maria Isabel, serviu para aproximar Portugal e Espanha. Carlos era o tio materno de Maria Francisca, eles tiveram três filhos juntos.


Depois de ficar viúvo, Carlos desposou sua cunhada, a infanta D. Maria Teresa de Bragança, irmã mais velha de D. Maria Francisca.


D. Maria Francisca de Bragança faleceu na reitoria de Alverstoke, um vilarejo em Gosport, Hampshire, Inglaterra. O seu corpo foi sepultado na capela-mor da Igreja de St. Mary's do mesmo vilarejo, sendo posteriormente trasladada para a Catedral de Trieste, em Itália.


Descendência:


Casou com Carlos, Conde de Molina e teve os seguintes filhos:



  • Carlos, Conde de Montemolín (1818-1861), sem descendência;

  • João, Conde de Montizón (1822-1887), com descendência;

  • Fernando de Bourbon e Bragança (1824-1861), sem descendência;

Biografias - Maria Isabel de Bragança, Rainha de Espanha

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Maria Isabel Francisca de Assis Antónia Carlota Joana Josefa Xaviera de Paula Micaela Rafaela Isabel Gonzaga de Bragança e Bourbon (Queluz, 19 de maio de 1797 – Aranjuez, 26 de dezembro de 1818) foi a terceira filha, segunda menina, do rei João VI de Portugal e da infanta Carlota Joaquina da Espanha, era irmã mais velha do futuro imperador dom Pedro I do Brasil. Casou-se com o rei Fernando VII da Espanha, que era seu tio além de seu marido. Morreu após lhe retalharem o ventre numa cesariana desastrosa.


Biografia:


Maria Isabel nasceu em 19 de maio de 1797 no Palácio Real de Queluz, Portugal. Ela foi nomeada em homenagem à sua avó Maria e a sua bisavó Luísa Isabel da França e seu nome completo era Maria Isabel Francisca de Assis Antónia Carlota Joana Josefa Xaviera de Paula Micaela Rafaela Isabel Gonzaga. Desde seu nascimento recebeu o prefixo honorífico de "Dona".


Seu pai era o então D. João, Príncipe do Brasil, com Dona Maria Isabel sendo assim membro da Casa de Bragança. Seus avós eram a rainha D. Maria I e o rei D. Pedro III de Portugal, que eram sobrinha e tio além de marido e mulher (assim como ela e o marido Fernando VII). Sua mãe era Carlota Joaquina de Boubon, infanta da Espanha e filha do rei Carlos IV da Espanha e de sua esposa Maria Luísa de Parma.


No final de novembro de 1807, quando Maria Isabel tinha apenas dez anos de idade, o exército francês do imperador Napoleão Bonaparte invadiu Portugal e toda a família real portuguesa fugiu de Lisboa. A corte atravessou o oceano Atlântico até chegar em março do ano seguinte à cidade do Rio de Janeiro, então capital do Brasil, a maior e mais rica colônia de Portugal.


Seu casamento com Fernando VII, celebrado no dia 29 de Setembro de 1816, em Madrid, tinha como objetivo reforçar as relações entre Espanha e Portugal. Por este mesmo motivo, também ocorreu o matrimónio entre o infante Carlos de Bourbon, irmão de Fernando, com a infanta Dona Maria Francisca.


D. Maria Isabel de Bragança e seu tio Fernando VII tiveram duas filhas. Logo após a morte de sua primogênita, ela engravidou, mas o parto foi difícil. O bebê estava na culatra e os médicos logo descobriram que a criança havia morrido. Maria Isabel parou de respirar logo depois e os médicos pensaram que ela estava morta; Quando eles começaram a cortá-la para extrair o feto morto, ela de repente gritou de dor e caiu em sua cama, sangrando pesadamente.


Ainda hoje esta rainha dos espanhóis é recordada como "a rainha que morreu duas vezes". O seu corpo está sepultado no mosteiro do Escorial, nos arredores da capital espanhola.


Legado:


Maria Isabel destacou-se por sua cultura e afeição pela arte. Foi dela que partiu a iniciativa de reunir obras de arte dos monarcas espanhóis para criar um museu real, o futuro Museu do Prado, inaugurado em 19 de Novembro de 1819, um ano após sua morte.


Descendência:


Casou com Fernando VII de Espanha e teve os seguintes filhos:



  • Maria Luísa Isabel (1817-1818) morreu na infância.

  • Maria Luísa Isabel (1818) natimorta

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Eventos Reais e Cerimónias - Prémios Príncipe da Beira


A cerimónia de entrega do «Prémio Príncipe da Beira em Ciências Biomédicas» trata-se de um prémio instituído pela Fundação D. Manuel II, com o apoio da Universidade do Minho e pelo Município de Guimarães. 


A cerimónia realiza-se no salão nobre da Câmara Municipal de Guimarães, foi realizada pela primeira vez em 2016 e realiza-se de dois em dois anos.


Prémios Príncipe da Beira ano a ano:


2016 2018 2020  2023

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Paço Ducal de Vila Viçosa conta-nos quem foi o curioso e esquecido Infante D. Afonso Henriques

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No próximo sábado, dia 22 de fevereiro, pelas 11 horas, o Museu-Biblioteca da Casa de Bragança no Paço Ducal de Vila Viçosa, apresenta uma conferência sobre o Infante D. Afonso Henriques, o curioso e esquecido Duque do Porto, de quem se sabe muito pouco, excepto que teve um papel secundário por ser irmão do rei D. Carlos I e o último vice-rei da Índia.


A conferência é proferida pelo especialista João Vaz, do Palácio Nacional de Mafra.


João Barreto de Morais Vaz, nascido em 1954, é licenciado em História, mestre em História da Arte, técnico superior da DGPC, tendo sido conservador das coleções de Pintura e Desenho no Palácio Nacional da Ajuda (1999-2019) e conservador das coleções de Pintura, Desenho e Escultura no Palácio Nacional de Mafra (desde 2019).


Publicou o livro “A Pintura Mural do Real Paço da Ajuda. 1796-1833 – Imagens do Poder”, Foi Comissário científico da exposição “Um Olhar Real. A Obra Artística da Rainha D. Maria Pia. Desenho, Aguarela e Fotografia”


Colaborou em diversos catálogos de exposições, publicou artigos vários no âmbito da História da Arte, colaborou também em estudos de impacte ambiental, na área da Cultura e foi professor de História e Português na Escola Padre Francisco Soares (Torres Vedras), onde também exerceu os cargos de vogal e Presidente do Conselho Diretivo.


Fonte: https://tribunaalentejo.pt/

Rainha D.Maria Pia em 1907

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segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Rei D.Carlos I e Rei Alfonso XIII de Espanha em 1903

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Lisboa, 13 de Dezembro de 1903.
Durante a sua visita a Portugal, o Rei Afonso XIII de Espanha, na companhia do anfitrião D. Carlos I de Portugal, aguardavam em Belém o comboio para Sintra.
-Foto de Paulo Guedes, in AML.


Fonte: Grupo Lisboa Antiga no Facebook

Palácio de São Marcos

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O Palácio de São Marcos foi construído em meados do séc. XX sobre as ruínas de um mosteiro quatrocentista pertencente à Ordem de S. Jerónimo. A quando da extinção das ordens religiosas em 1834, o mosteiro tornou-se posse de particulares. A falta de manutenção agravada por um grave incêndio que teve lugar em 1860, votou o espaço a um estado de ruína quase total, do qual se salvaram apenas a igreja monástica e a casa da botica.



Inspirado pelos palácios seiscentistas, o arquiteto Leonardo Castro Freire projetou o edifício que atualmente acolhe o palácio. O Palácio de S. Marcos serviu de residência oficial aos Duques de Bragança entre 1954 e 1975. Em 1976 o Palácio foi adquirido pelo Estado Português à Fundação da Casa de Bragança e posteriormente cedido à Universidade de Coimbra, em 1981, para a realização de atividades científicas, culturais e sociais.


Fonte: https://www.uc.pt/saomarcos/historia

Foto do Rei D.Manuel II e da Rainha D.Augusta Victoria

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domingo, 16 de fevereiro de 2020

D.Duarte Pio, Duque de Bragança, investiu novos membros na Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa

O Grão-Mestre das Ordens Reais Dinásticas Portuguesas , D.Duarte Pio, Duque de Bragança, investiu novos membros na Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, em Lisboa. Entre os novos membros investidos na ordem estão o Príncipe D. Antônio de Orleans e Bragança, o arquiduque Josef Karl von Habsburg, príncipe da Hungria e o padre Tiago Pinto.


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Fonte: Facebook Associação de Damas e Cavaleiros - Ordens Dinásticas Casa Real Portuguesa

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Narcisa, parteira que assistiu a Rainha D.Maria Pia de Sabóia

Narcisa foi a parteira que assistiu a Rainha D.Maria Pia de Sabóia no nascimento do seu filho mais novo, o Rei D.Carlos I. A Rainha D.Maria Pia apenas quis ter junto de si a presença do rei, do médico Magalhães Coutinho, da parteira Narcisa e das suas damas de serviço.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

João Carlos de Saldanha Oliveira e Daun, mordomo-mor da Casa Real

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João Carlos Gregório Domingos Vicente Francisco de Saldanha Oliveira e Daun, 1.° conde, 1.° marquês e 1.° duque da Saldanha (17 de novembro de 1790 - 20 de novembro de 1876)


Foi marechal general do exército, par do Reino, conselheiro de Estado efectivo, presidente do Conselho de Ministros, ministro da Guerra e ministro plenipotenciário em Londres, mordomo-mor da Casa Real, vogal do Supremo Conselho de Justiça Militar, etc. Nasceu em Lisboa a 17 de novembro de 1790, faleceu em Londres a 20 de novembro de 1876. Era nono filho do 1.º conde do Rio Maior, João Vicente de Saldanha Oliveira e Sousa Juzarte Figueira, e da condessa sua mulher, D. Maria Amália de Carvalho Daun, 3.ª filha dos 1.os marqueses de Pombal. 


Matriculou-se na Academia Real de Marinha em 1805, fez um curso brilhante, tendo recebido distinção no 1.º ano lectivo, e sendo premiado no 2.° e 3.° A 28 de setembro de 1805 assentou praça no Regimento de Infantaria n.º 1, comandado então pelo marquês de Alvito, foi reconhecido cadete, e a 24 de junho de 1806 promovido a capitão, em virtude do decreto de 8 de janeiro desse mesmo ano, pelo qual se determinava que os filhos militares dos conselheiros de Estado recebessem como primeiro posto o de capitão. Não tinha o agraciado ainda dezasseis anos completos. A 17 de agosto de 1807 era promovido de capitão adido a capitão efectivo. Quando a família real se retirou para o Brasil em novembro desse ano e o general Junot entrou em Portugal à frente das suas tropas, o jovem capitão Saldanha pediu a sua demissão, que a Regência do Reino lhe concedeu por decreto de 25 de janeiro de 1808. Em 5 do mês de fevereiro seguinte alistou-se intrepidamente num grupo de conspiradores que premeditavam arrancar a pátria ao domínio estrangeiro. Foi na 13.ª sessão dos conjurados que o capitão Saldanha se apresentou para colaborar na restauração da pátria, mas apenas se soltou o brado da independência, e um punhado de tropas portuguesas se foi juntar ao pequeno exército inglês que desembarcara na baía de Lavos, Saldanha correu logo a juntar-se aos soldados que se agrupavam em torno do general Bernardim Freire de Andrade, e reintegrado no seu posto por decreto de 13 de setembro de 1808, voltou a comandar a 8.ª companhia do Regimento de Infantaria n.º 1. Começou então a brilhante carreira militar de Saldanha. Contava somente dezoito anos, e já conquistara o prestígio que sempre depois exerceu entre os soldados, tanto que foi escolhido pelo coronel para fazer entrar na ordem uma companhia insubordinada. Nomeado ajudante de campo do general Miranda Henriques, que estava em Tomar, estudou com afinco a táctica inglesa mandada adoptar por Beresford, e mostrando-se apto para comandar por essa táctica um regimento na presença do general, este promoveu-o a major por distinção a 9 de dezembro de 1809, continuando a servir em infantaria n.º 1. Em 1810 distinguiu se notavelmente na batalha do Buçaco, improvisando uma coluna com duas companhias de infantaria n.º 1 e n.º 16, e repelindo intrepidamente os franceses. Na batalha de Salamanca em 22 de julho de 1812, tornou-se tão saliente que foi promovido a tenente-coronel em setembro desse ano, sendo por ele preteridos vinte e três majores, alguns deles ingleses, o que prova a consideração em que era tido por Beresford e Wellington. Com o seu regimento, que fazia parte da brigada Pack, entrou Saldanha no combate de Carrion a 25 de setembro de 1812, na defesa da passagem de Tormes de 8 a 14 de novembro, no combate de Muñoz a 27, na batalha de Vitoria a 21 de junho de 1813, na tomada da aldeia de Viasayn a 24, na tomada de Tolosa, em Espanha, a 25, e nos assaltos à praça de S. Sebastião nos dias 25 de julho e 31 de agosto. Depois das batalhas dos Pirenéus, em que Saldanha tomou parte, o exército anglo-português entrou em França, e na batalha de Nive, a 13 de dezembro de 1813, estreou-se Saldanha no comando do seu regimento. De tal forma se conduziu que Beresford o achou digno de lhe dar interinamente o comando duma brigada, composta dos regimentos n.ºs 12 e 21 e do Batalhão de Caçadores n.º 5. Tendo, porém, adoecido o general Hill, comandante doutra brigada, foi ela também entregue ao jovem tenente-coronel Saldanha, que assim, aos vinte e três anos de idade, era comandante duma divisão que formou a esquerda do corpo do exército que cercou Baiona. Foi esta a admirável estreia de Saldanha, e os seus talentos e a sua bravura foram tão apreciados em Inglaterra, que, tendo recebido os comandantes dos regimentos que entraram na batalha de Nive, uma medalha comemorativa da vitória, a medalha que veio para Saldanha era especial. 


Voltando com pouco mais de vinte e três anos ao país, João Carlos de Saldanha entrava na casa paterna com o posto de tenente-coronel, com as medalhas de ouro das seis campanhas, as medalhas inglesas do Buçaco, de S. Sebastião e de Nive, as medalhas espanholas de Vitoria, S. Sebastião, Nive e Tolosa. Em boa conta o tinha o marechal Beresford, que foi o regimento que ele comandou, o primeiro escolhido para embarcar para a Bélgica, quando lorde Wellington. pediu vinte mil homens a Portugal para tomarem parte na campanha terminada em Waterloo. O governo português não quis mandar os vinte mil homens reclamados, e a campanha foi rápida, e por isso o 13 de infantaria não chegou a embarcar. Entretanto Saldanha casava a 5 de outubro de 1814 com uma senhora irlandesa, Maria Teresa Horan Fitzggerald, filha do general Thomaz Horan e de sua mulher Isabel Fitzgerald, a qual, ficando órfã de seus pais, fora educada desde os sete anos pela condessa de Rio Maior. Organizando-se a divisão que devia partir para o Brasil para tomar parte na expedição de Montevideu, foi logo Saldanha escolhido para ser um dos oficiais da divisão. Promovido a coronel e colocado como adido ao estado-maior, saiu de Lisboa a bordo do navio Despique a 27 de julho de 1815. Recebido pelo príncipe regente D. João com as máximas distinções, nomeado cavaleiro da Ordem de Cristo e comendador da Torre e Espada, Saldanha recebeu a 7 de junho de 1816 o comando do 1.º regimento de infantaria. Foi rápida e fácil a campanha de Montevideu para esses veteranos da Guerra Peninsular, e de pouco valeram as vitórias de Chafalote e da Índia Morta para os soldados que tinham batido em Vitoria as magnificas tropas do grande Napoleão. Contudo, se essas primeiras vitorias em campina rasa, pouca importância tiveram, entrando os nossos facilmente na cidade de Montevideu, a campanha da guerrilhas que depois se abriu, e que durou cinco anos, campanha em que tinham vantagens enormes esses destemidos gaúchos, que formavam a força principal do exercito de Artigas, teve séria importância, e nela conquistaram louros não menos apreciáveis do que os que tinham ganho na Guerra Peninsular os soldados portugueses. Esteve até 1818 a primeira brigada de que fazia parte o regimento de que Saldanha era coronel, encarregado do serviço exterior da praça de Montevideu e teve por isso de repelir em numerosas sortidas os ataques do inimigo. Em 1818 foi Saldanha encarregado de ir comandar na divisão do general Curado a coluna ligeira com o posto de brigadeiro. Saldanha já era general aos vinte e sete anos. Foi essa uma das mais brilhantes campanhas da sua carreira militar, debaixo do ponto de vista do valor pessoal. Na sua frente tinha a mais terrível cavalaria irregular, esses formidáveis gaúchos que vivem a cavalo, que realizam nas planícies americanas a fábula dos centauros. A sua coluna compunha-se principalmente de cavalaria, costumada a bater-se com os dragões e os hussardos de Napoleão, mas pouco habituada à luta contra esses guerrilheiros fantásticos que apareciam e desapareciam num momento, depois de terem vibrado os seus golpes mortais. Nos combates de cavalaria repetidos que travou com o inimigo, teve sempre Saldanha a espada em punho, lavado em sangue, acutilado e ferido. Uma manhã deu cinco cargas à frente dos seus esquadrões. Uma noite, surpreendido por um destacamento de cavalaria de Lavalleja, tendo-lhe morrido o cavalo, defendeu-se a pé com toda a energia, mas deveu a sua salvação a um intrépido sargento que lhe cedeu o cavalo, e que perdeu um braço decepado por uma cutilada que ia com destino ao jovem brigadeiro. Saldanha adquiriu desde logo com o seu porte nessa campanha uma reputação gloriosíssima. Escolhido, apesar de ser o brigadeiro mais moderno, para comandar a divisão do general Curado, foi, quando terminou a guerra com a fuga de Artigas, nomeado capitão-general da província do Rio Grande do Sul, em 1821, em substituição do conde da Figueira. Saldanha partiu para o seu governo, onde começava já a agitar-se, assim como em todo o Brasil, o espírito da independência; porém, chegando com a sua brigada, a tudo pôs cobro rapidamente, e não só impediu a revolta de rebentar, mas de tal modo conciliou as simpatias de todos, que o próprio imperador D. Pedro lhe contou, muitos anos depois, que, ao visitar as províncias de Rio Grande do Sul, não ouvira senão o seu nome repetido sempre com louvor. Saldanha entregou-se dedicadamente ao seu governo, provando que era tão hábil administrador como se mostrara já valente e hábil oficial. 


Quando D. Pedro foi proclamado imperador, vendo Saldanha, os portugueses coagidos ou a aderir à proclamação dessa nacionalidade ou a deixar o Brasil, não hesitou um momento e pediu a sua demissão. Empregaram todos os esforços para que ele desistisse do seu propósito, mas Saldanha conservou-se firme na sua insistência e foi então para o Rio de Janeiro acompanhado por uma escolta de cavalaria, que lhe tinham dado a pretexto de o guardar e honrar, mas que verdadeiramente o levava preso, porque os rio grandenses, perdendo a esperança de o ver abraçar a independência do Brasil, também não queriam largar de mão tão perigoso adversário. Publicou por essa ocasião no Rio de Janeiro uma Carta do brigadeiro João Carlos de Saldanha dirigida aos membros do governo provisório da província do Rio Grande do Sul, pedindo a demissão dos seus empregos e passaporte para se retirar para Lisboa; no mesmo ano de 1822 publicou 2.ª edição com o título de Representação que faz João Carlos de Saldanha, etc. No Rio de Janeiro, D. Pedro mandou-o soltar, mas tentou retê-lo no Brasil, com as mais, brilhantes promessas; por fim, reconhecendo que tudo era inútil, deixou-o partir para a Europa a bordo do brigue Três Corações, a 4 de dezembro de 1822. O que o novo imperador lho oferecia era o título de marquês, o posto de major general do exército brasileiro, de que era comandante o próprio imperador, e a propriedade de vastíssimos terrenos. Tudo rejeitou, e entrou em Lisboa apenas com 25$000 reis, e nem isso traria, se não tivesse deixado no Rio Grande a mulher que fora ter com ele à América, e os filhos que tinham ali nascido, e que pouco depois vieram para Portugal. 


Entretanto acontecia a Saldanha um caso muito estranho. Bem recebido em Lisboa, era imediatamente nomeado para o comando duma expedição que ia embarcar para a Baía, a fim de reduzir o Brasil à obediência da metrópole. Ordenava-se lhe, porém, que embarcasse imediatamente na fragata Pérola, onde receberia as instruções necessárias. Saldanha correu a declarar ao ministro da guerra, então Manuel Gonçalves de Miranda, ser-lhe impossível partir assim, sem saber as forças que lhe confiavam e a missão de que o encarregavam, mostrando o estado em que se achava o Brasil, e a necessidade, se queriam operar seriamente contra ele, de empregar nessa empresa forças importantes. Debalde se amiudaram as conferencias, e persistindo Saldanha na sua recusa, por que via que forçosamente ia macular a sua justa reputação com desastres inevitáveis, foi enviado preso para o castelo de S. Jorge, e mandado responder a conselho de guerra. Revoltado com tão flagrante injustiça, Saldanha recorreu pela primeira vez à imprensa, e escreveu e publicou: Exposição ingénua dos motivos que decidiram o brigadeiro João Carlos de Saldanha a não aceitar o comando da expedição à Baía, Lisboa, 1823. A prisão realizara-se em fevereiro, mas chegou o mês de Maio sem o conselho de guerra se ter reunido, nem havia já vontade que ele se reunisse. O ministério quisera apenas dar uma prova de força, quisera salvar a sua existência, posta em risco pela desgraçada questão do Brasil, mas não queria de modo algum que Saldanha repetisse no conselho o que dissera nas conferências com o ministro. Nesse mês de Maio, com o movimento da Vilafrancada, Saldanha recuperou a liberdade. Reclamava o conselho de guerra, mas o rei D. João VI declarou-lhe que o dispensava de dar provas da sua inocência, que era bem conhecida, e em seguida o nomeou comandante do exército de observações que se formara no Alentejo em virtude dos acontecimentos de Espanha. Esse exército ficou dissolvido, quando Espanha sossegou, e Saldanha foi nomeado a 8 de Abril de 1825 governador das armas do Porto.


Um ano depois morreu D. João VI, sucedendo-lhe seu filho D. Pedro, com o nome de D. Pedro IV, e o novo soberano enviou do Brasil, por lorde Stuart, a Carta Constitucional, que foi recebida com entusiasmo pelos liberais. Era regente do reino a infanta D. Isabel Maria, que se havia rodeado dum ministério perfeitamente reaccionário, o qual procurava todos os pretextos para impedir a publicação e o juramento da carta. Os liberais começaram a impacientar-se, e o Porto agitou-se e reclamou energicamente protestando contra a demora. Saldanha, como governador militar, escreveu à regente e ao governo, e como as respostas tardassem, mandou a Lisboa o coronel Rodrigo Pinto Pizarro, que não só repetiu as instâncias do brigadeiro Saldanha para que fosse jurada a Carta, mas que da parte do mesmo general convidou os comandantes dos corpos a dirigirem à regente um manifesto no mesmo sentido. Era uma intimação, e tão formal que a infanta cedeu, e a 12 de julho a carta foi publicada na Gazeta de Lisboa, designando-se o dia 31 para o juramento. Apenas a notícia chegou ao Porto, Saldanha foi aclamado como um herói. Houve grandes festas para celebrar o juramento da Carta, levantaram-se arcos triunfais em diversas ruas, realizando-se entusiásticas manifestações. O ministério adverso à Carta pediu a demissão logo que viu, que a regente seguia um caminho diverso do que ele lhe indicara. Por decreto de 1 de agosto formou-se novo ministério, e a infanta mandou chamar Saldanha para lhe confiar a pasta da guerra. No Porto repetiram-se as manifestações ao governador das armas, quando no dia 3 ele partiu para Lisboa a tomar posse do seu novo cargo. Em 20 de outubro rebentou no Algarve uma revolta militar miguelista, e Saldanha correu pessoalmente a subjugá-la, o que pouco tempo bastou, porque os revoltosos, sendo avisados, atravessaram o rio Guadiana para a fronteira cidade de Ayamonte, na Andaluzia. Saldanha regressou logo a Lisboa; deixando ao conde de Vila Flor o comando das tropas liberais, mas apenas chegou uma doença grave, que o teve às portas da morte, o obrigou a afastar-se por algum tempo do serviço público. Graves questões se iam entretanto levantando no país. A regente não estava perfeitamente afecta à causa liberal, ou pelo menos deixava se dominar pelos seus adversários. O partido vencido em 31 de julho ia recuperando pouco a pouco o seu ascendente, e no ministério composto primeiro de homens liberais iam entrando elementos profundamente adversos à liberdade. Todas as medidas, todas as resoluções que se tomavam, tendiam a destruir a liberdade, a, Carta não se cumpria senão dum modo perfeitamente irrisório. Quando Saldanha, depois de cinco meses de trabalhosa doença, entrou restabelecido no conselho de ministros, encontrou tudo completamente diferente do que tinha deixado. Imediatamente, não só na sua repartição seguiu um caminho diverso, mas imprimiu no caminhar de todo o ministério uma direcção contrária à que se estava seguindo. Promulgou uma série de medidas, entre as quais se contavam a substituição do redactor da Gazeta de Lisboa, a demissão do regedor das justiças do Porto, do intendente da policia e do presidente da Relação de Lisboa, inimigos declarados das ideias novas. Aconselhada pelos elementos absolutistas, a infanta D. Isabel Maria recusou-se a assinar estes decretos, e Saldanha pediu imediatamente a sua demissão, que lhe foi concedida a 23 de agosto de 1827. Era exactamente o que os partidários do governo absoluto queriam. Esta demissão significava simplesmente que o ultimo sustentáculo da causa liberal no ministério era sacrificado pela regente às tendências absolutistas do resto do gabinete, e o povo tanto o compreendeu, que nessa mesma noite, em sinal de protesto, fez uma imponente manifestação, conhecida pelo nome de Archotadas, por ter sido feita à luz dos archotes, e que é a maior prova da imensa popularidade que Saldanha alcançara. A multidão aclamava-o, por ver nele o heróico paladino da liberdade, que o poder absoluto pretendia destruir. Esta grande manifestação popular ainda mais exacerbou o ministério contra o seu ex-colega, e excitou as suas perseguições contra todos os amigos do futuro marechal. Este, entretanto, vendo como as coisas corriam desfavoravelmente para a causa liberal, percebendo que a regência do infante D. Miguel seria o último golpe vibrado nas instituições, enviou ao Rio de Janeiro um seu ajudante, o capitão Praça, a informar D. Pedro da situação de Portugal e dos inconvenientes que arrastaria consigo a nomeação do infante para regente do reino. Quando o ajudante de Saldanha chegou ao Rio de Janeiro, já a nomeação estava feita, e já partira com ela para Lisboa um navio. Saldanha, conhecendo que as coisas mais se complica vem, e sabendo também que o governo inglês chamara para Inglaterra a divisão do general Clinton, deixando assim a causa liberal, não só sem a protecção das armas britânicas, mas também sem o prestígio do nome inglês, entendeu que nada faria em Portugal, e embarcou para Inglaterra com as tropas inglesas. 


Estava-se então nos fins do ano de 1827, e no princípio de 1828 entrava D. Miguel em Portugal, dava o golpe de estado, e fazia-se proclamar rei absoluto. Uma parte do exército não aceitou, porém, a nova ordem de coisas, a guarnição do Porto insurgiu-se, aderiu ao movimento uma boa parte das tropas do norte, e organizou-se assim um pequeno exército, cujo comando uma junta provisória que logo se organizou, confiou ao general Saraiva Refoios. Saldanha e Palmela, sabendo em Londres da sublevação, supuseram que haveria já em Portugal sérios elementos de resistência às tentativas absolutistas, e fretando o vapor Belfast, partiram para o Porto juntamente com os generais Stubbs, Azevedo, etc. Como a cidade estava bloqueada pela esquadra de D. Miguel, foram desembarcar a alguma distância do Porto, e entraram depois na cidade, vendo aí que as circunstâncias eram muito piores do que supunham. O país permanecia inerte, ou mostrava entusiasmo pela causa de D. Miguel. Saraiva Refoios, depois de ocupar Coimbra, fora batido nuns poucos de recontros, e retirava sobre o Porto. Saldanha ainda tomou o comando das mãos inábeis do general Saraiva, e postou o exercito em Grijó numa posição vantajosa, ao passo que Stubbs se fortificava em Valongo, mas de repente, quando. menos se esperava, Saldanha abandonou o exército, que recuperara a confiança vendo-se comandado pelo prestigioso general, e embarcava precipitadamente no Belfast com os outros com quem viera. Este caso, decerto o único censurável da vida militar de Saldanha, não foi nunca bem explicado. Qual foi o motivo desta súbita partida? Como é que Saldanha, o herói de Montevideu, homem duma bravura nunca desmentida, assim fugia diante do inimigo, deixando os soldados, cujo comando tomara, fazerem, sem o seu general, essa triste retirada da Galiza, onde tanta e tão justa glória adquiriu Sá da Bandeira, a quem tinham oferecido um lugar a bordo do Belfast, e que este general recusara, permanecendo no seu posto de honra (V. Sá da Bandeira). Este caso do vapor Belfast ficou sempre misterioso, mas apesar da má impressão que produziu nos emigrados, não diminuiu o prestigio de Saldanha, e no fim desse ano de 1828 já uma expedição de voluntários se preparava em Plymouth, para sob as ordens de Saldanha ir socorrer a ilha Terceira, onde tremulava a bandeira liberal arvorada pelo intrépido batalhão de caçadores n.º 5, que compunha a guarnição da ilha. Saldanha já então era conde, título com que fora agraciado em 1827, mas que só foi confirmado por decreto de 14 de janeiro de 1833. Foram 650 os portugueses emigrados que se aprontaram para seguir na expedição, os navios fretados eram os brigues Susana e Lyra, e as galeras Minerva Delfins. Custou imenso ao marquês de Palmela conseguir que o governo inglês deixasse sair a expedição portuguesa apesar de todas as liberdades britânicas, e ainda assim foi preciso que a expedição fosse completamente desarmada, porque o governo de lorde Wellington, secretamente favorável à causa de D. Miguel, não queria senão encontrar um pretexto que lhe permitisse impedir a saída dos navios. A 16 de janeiro de 1829 chegou Saldanha às águas da Terceira, e preparava-se para desembarcar, quando foi de súbito metralhado por duas fragatas inglesas. Esta rude e brutal intimação provocou da parte do conde de Saldanha e do comodoro Walpole uma troca de correspondência, em que Walpole declarou que tinha ordem de não consentir que ele e os seus homens desembarcassem na ilha Terceira. Saldanha respondeu que nesse caso se, considerava seu prisioneiro de guerra. Debalde o comodoro procurou de todos os meios conseguir que a expedição obedecesse ás suas intimações, sem a Inglaterra parecer que praticava um acto hostil. Saldanha persistiu que ou se considerava prisioneiro de guerra do oficial inglês ou que desembarcava. Walpole teve de escoltar os navios do conde de Saldanha até ao cabo Finisterra. Só aí os deixou furioso pela pertinácia do conde, que pôde formular num magnífico protesto as suas queixas contra o procedimento inglês. A opinião pública europeia revoltou-se com esse procedimento. Saldanha, que desejara seguir para o Brasil, mas que o não pudera fazer por falta de abastecimentos, e não querendo voltar a Inglaterra, foi desembarcar em Brest, e atravessando toda a França, seguiu para Paris, encontrando por toda a parte as manifestações da mais viva simpatia. Este procedimento de Saldanha foi talvez o que facilitou um pouco a ida do conde Vila Flor para a Terceira, obrigando o governo inglês a tomar uma atitude mais hesitante e o cruzeiro inglês nos Açores a ser por conseguinte menos severo e menos escrupuloso. O facto efectivamente provocara a indignação de todos os liberais. Nas câmaras francesas Benjamin Constant, Lafayette, Sebastiani haviam-no estigmatizado com energia; na própria câmara inglesa os celebres Malkintosh e Palmerston haviam censurado o procedimento do governo. Também Saldanha adquirira as mais vivas simpatias. Só com ele quisera o governo francês tratar as questões relativas aos subsídios a conceder aos emigrados portugueses. Saldanha fora também incansável em acudir aos seus compatriotas. Não só obtivera subsídio para todos, até para os académicos e paisanos, não só conseguira que as senhoras francesas presididas pelo conde de Flahaut, promovessem um baile por subscrição em favor dos emigrados portugueses, baile que rendeu 30.000 francos, mas ainda se empenhou com o governo belga por intermédio do major Lopes de Andrade, para que valesse aos emigrados portugueses que para a Bélgica haviam partido, e logrou ainda que o governo francês subsidiasse os emigrados portugueses que estavam em Plymouth, e que não podiam ali viver com o mesquinho tratamento que recebiam do governo inglês. Saldanha também vivia em tristíssimas circunstâncias. As jóias tinham-se vendido, os 90 francos (16$200 réis) mensais que recebia do governo francês como emigrado, não chegavam para o seu sustento, de sua mulher e de seus filhos. Foi então que recorreu ao trabalho literário, escrevendo no Nacional, periódico democrático redigido por Armand Carrel, e onde colaboravam alguns dos vultos mais notáveis do partido liberal de França. Foi decerto a sua colaboração naquele jornal e a convivência com os democratas franceses, que nele escreviam, que o converteram no liberal avançado que por essa época foi, enfileirando entre os revolucionários de 1820, bem diferentes nas suas aspirações políticas dos cartistas de 1826. Entre esses homens estabeleceu-se uma espécie de antagonismo doutrinário, que as intrigas da emigração mais agravaram. Em conciliábulos misteriosos os dois grupos procuravam dilacerar-se. E D. Pedro, cujas simpatias iam, naturalmente, para os partidários dedicados à Carta, principiou a olhar com tanta desconfiança para Saldanha, que, tendo chegado do Brasil, influído pelo que ouvira contar dos projectos audaciosos do valoroso general, quando se tratou de organizar com os emigrados dispersos pela Europa a expedição de Belle-Isle para os Açores, não o nomeou, como estava projectado, chefe do estado maior, declarando o próprio D. Pedro a Saldanha, que lhe fora comunicada da parte de Fernando VII de Espanha, a ameaça de intervir na contenda com um exército de 40.000 homens, se Saldanha fizesse parte da expedição. Saldanha, com a mais profunda mágoa, viu partir a expedição, tendo de explicar no Nacional, de 13 de janeiro de 1831, e numa circular impressa dirigida aos seus amigos; os motivos da sua forçada inacção. Já três anos antes havia publicado umas Observações sobre a Carta que os membros da Junta do Porto dirigiram a S. M. o Imperador do Brasil em 5 de agosto de 1828, Paris, 1829; este folheto saiu em 1830, mais acrescentado, com o título: Perfídia desmascarada, ou carta da Junta do Porto a S. M. o Imperador do Brasil, e observações à mesma carta pelo conde de Saldanha, e por outro emigrado,  com notas do editor


Saldanha, depois da partida da expedição para os Açores, conservou-se durante um ano assistindo de longe ás peripécias desse terrível drama das lutas civis. Finalmente, nos últimos meses de 1832, a causa liberal esteve por tal forma arriscada que, depois de se ter convidado o general Solignac a tornar o comando em chefe do exército, vendo que essa nomeação não dava o mínimo resultado, por ser o general francês uma mediocridade, apesar da fama que o precedia, e D. Pedro, completamente desanimado, consentiu que fossem para o Porto todos os militares que se conservavam ainda longe da pátria, com excepção do coronel Pizarro. Denunciavam-se assim claramente as intrigas facciosíssimas que tinham desviado Saldanha do campo da batalha, onde se agitavam os destinos da pátria. Saldanha nem um instante hesitou, apesar de saber que a causa liberal parecia tão perdida, que D. Pedro dizia para Londres a Palmela, que se não alcançasse a intervenção inglesa dentro de 30 dias, nenhum recurso lhe restaria. O cerco do Porto, que principiou pouco depois do desembarque de D. Pedro, apertava-se cada vez mais, e a cidade estava realmente prestes a ceder, quando Saldanha, Stubbs e Cabreira desembarcaram na Foz a 28 de janeiro de 1833. Solignac tivera a inabilidade de abandonar o monte do Crasto e principalmente o montinho do Pinhal que dominava a Foz, e cuja ocupação pelo inimigo trazia inevitavelmente consigo a perda do Porto, porque seria impossível entrarem mais víveres ou munições na cidade sitiada. Saldanha, logo ao chegar, recebera o comando da esquerda da linha, e logo viu o erro gravíssimo que se cometera. Fê-lo sentir a Solignac, e disse-lhe que era indispensável recuperar o Pinhal. Solignac opôs-se, respondendo que seria uma verdadeira loucura, e proibiu-lhe até expressamente que o fizesse; mas Saldanha estava tão convencido da sua opinião que tomou a responsabilidade da desobediência. Atacou rapidamente o Pinhal ainda mal guarnecido pelo inimigo, e assenhoreou-se dele quase sem perdas. Solignac, em presença do resultado obtido, não ousou censurar a desobediência de Saldanha, já marechal de campo, e não teve contudo a coragem de pedir a sua demissão. Saldanha, sem mais pensar no comandante em chefe, tratou de fortificar com toda a rapidez as suas fortificações. A 4 de março foi o reduto do Pinhal atacado vivamente, porém D. Pedro que conseguira armá-lo o melhor possível, repeliu o inimigo com energia. Então é que se conheceu pela força do ataque dos miguelistas, a importância das fortificações que Saldanha improvisara, e que eram o assombro de todos. Solignac ainda desta vez assistiu ao triunfo do conde de Saldanha, sem tomar parte nele, conservando-se imóvel com o resto do exército. Que rancor ardia no peito de Solignac pode imaginar-se, sabendo que o queria mandar fuzilar, quando soube que ele tivera conferências secretas com o general miguelista Lemos a bordo dum navio inglês. Chamado Saldanha, explicou ele facilmente que tivera essas conferências para pôr termo à guerra, conseguindo que pacificamente triunfasse a causa liberal sem se derramar mais sangue português. Solignac deu um jantar a Saldanha no mesmo dia em que o condenara a ser fuzilado, e ainda desta vez se não demitiu. Só percebeu enfim que devia pedir a demissão, quando no conselho de guerra que se reuniu para se tratar duma diversão que se deveria fazer, viu adoptada a opinião de Saldanha, que era uma expedição ao Algarve, contra a sua que era de se romperem as linhas miguelistas no sul do Douro. 


Apenas Solignac foi demitido, logo D. Pedro nomeou Saldanha chefe do estado-maior, que equivalia a confiar lhe o comando em chefe do exército. Essa nomeação foi acolhida com verdadeiro entusiasmo. Logo na acção de 5 de Julho se mostrou a energia e o talento do novo comandante. O exército miguelista, sabendo que a guarnição do Porto estava enfraquecida pela partida da expedição do duque da Terceira para o Algarve, atacou vigorosamente as linhas procurando cortar as comunicações entre a Foz e o Porto. Foi completamente repelido, e D. Pedro entusiasmado com a perícia do seu novo chefe do estado-maior, promoveu-o por distinção no campo da batalha ao posto de tenente-general. Apesar da derrota, os miguelistas não desanimaram, pela chegada do marechal francês Bourmont que acompanhado por uns cem oficiais legitimistas franceses, vinha tomar o comando do exército que sitiava o Porto. Não tardaram a medir-se os dois generais. Em 25 de julho Bourmont deu um ataque geral ás linhas do Porto, pôs em grave perigo a esquerda da linha que Saldanha defendeu brilhantemente repelindo o ataque, e pressentindo que Bourmont, repelido da esquerda havia de pretender atacar a direita, provavelmente enfraquecida pela concentração de forças no outro flanco, partiu a galope para Bonfim, e ali encontrou efectivamente o regimento belga repelido e os miguelistas já dentro do Porto. O momento era crítico. Os reforços não podiam chegar ainda. Saldanha, entretanto desembainha a espada, e carrega o inimigo à frente do seu estado-maior e da sua escolta de lanceiros. Cai morto seu sobrinho D. Fernando de Almeida, são feridos quase todos os oficiais, mas o inimigo recua, e o Porto está salvo na direita como já o estava na esquerda. O imperador, em recompensa de tão assinalada vitória, confere-lhe a grã-cruz da Torre e Espada. Chegam no dia 26 ao Porto as notícias da ocupação de Lisboa pelas tropas do duque da Terceira; D. .Pedro parte para Lisboa, deixando Saldanha comandante em chefe da guarnição do Porto. Não tardou que Bourmont, com uma parte do exército miguelista, marchasse a cercar Lisboa, ficando em frente do Porto o general Almer. Não quis Saldanha consentir que forças relativamente diminutas o paralisassem dentro da cidade. A 18 de agosto fez uma sortida, surpreende o inimigo, desaloja-o das suas fortes posições, repele-o em seguida nas alturas de Valongo, e completa assim o levantamento do cerco do Porto. A cidade aclamou com ovações frementes de entusiasmo o seu heróico salvador. Saldanha organiza então uma pequena divisão, e em 24 de agosto parte para Lisboa, deixando o governo do Porto entregue ao tenente general Stubbs. Chegando a Lisboa assume o comando do exercito, repele no dia 5 e no dia 14 de setembro os ataques de Bourmont, obriga Macdonell, que substituía no comando o general francês, a levantar o cerco da capital nos dias 10 e 11 de outubro. D. Pedro nomeou-o marechal do exército e para lhe ser agradável, mandou colocar de novo no pedestal da estátua de D. José, no Terreiro do Paço, o medalhão do seu glorioso avô, o marquês de Pombal. Mas a luta continuava agora ainda mais terrível do que nunca. Póvoas sucedera a Macdonell, continuando a manter-se na expugnável Santarém. Então Saldanha, deixando o duque da Terceira à frente das tropas liberais que ocupavam Cartaxo, marcha sobre Leiria com uma pequena força  e toma a cidade, derrota em Torres Novas os célebres dragões da Chaves, e finalmente desbarata completamente em Pernes uma força importante, que Póvoas para ali destacara na esperança de cortar as comunicações dos dois marechais. Então os miguelistas resolveram tentar um supremo esforço, o que proporcionou a Saldanha o ensejo de ganhar a mais brilhante vitória da sua carreira militar, a batalha de Almoster, que deu um golpe mortal na causa miguelista. Projectou Saldanha, em seguida a este brilhante feito de armas uma expedição ao norte para se assenhorear de todo o país e impedir que o inimigo recebesse reforços ou auxílios das províncias afectas ao absolutismo. O plano não foi aceite, e o marechal recebeu ordem de retirar para o Cartaxo com a sua divisão. Prosseguindo a campanha, os miguelistas ainda tiveram um efémero triunfo em Alcácer, onde os constitucionais foram repelidos. Como aproveitassem esta insignificante vitória para novos ataques, o plano de Saldanha foi afinal adoptado, sendo a sua execução confiada ao duque da Terceira. Pouco tempo depois com a batalha de Asseiceira, D. Miguel era derrotado por completo. Em 26 de maio de 1834, assinou-se a convenção do Évora Monte. Saldanha, a quem indubitavelmente se devia o êxito da campanha, foi elevado a marquês, por decreto passado logo no dia seguinte, e uma dotação de cem contos de reis em bens nacionais. 


Terminada a luta, começou o agitado noviciado constitucional do país. D. Pedro abriu as cortes em 15 de agosto de 1834, e Saldanha, sendo eleito deputado, foi o chefe da oposição no primeiro ministério de D. Maria II. Os inimigos, que antes e durante o cerco do Porto, tanto o combateram, voltaram à sua tarefa, agora mais fácil, porque na paz as intrigas podem mais facilmente urdir-se. A 27 de maio do ano de 1835, a rainha chamou-o ao poder, confiando-lhe a presidência do conselho e a pasta da guerra, e dando-lhe como colegas o duque de Palmela, o marquês de Loulé, Chanceleiros, João de Sousa Pinto de Magalhães, etc. Pouco depois entrou Rodrigo da Fonseca Magalhães para o governo, como ministro do reino. Este gabinete teve curta duração. A iniciativa de Saldanha em mandar a Espanha uma divisão auxiliar, que se portou ali brilhantemente, contra os carlistas, as reformas projectadas na instrução pública pelo ministro Rodrigo da Fonseca, e depois uma resolução do duque da Terceira, comandante em chefe do exército, relativamente ao papel dos oficiais nas eleições, originaram a queda do ministério, que foi substituído por outro da presidência de José Jorge Loureiro. Foi durante este último ministério, que rebentou a revolução de Setembro. Saldanha conservou-se um pouco afastado da política militante, descansando em Sintra, mas quando julgou que a revolução fora mais longe do que, no seu entender, devia ir, quando lhe pareceu que estavam em perigo as prerrogativas e a dignidade da rainha, que ele sustentara sempre com tanta dedicação, pronunciou-se, de acordo com o duque da Terceira, contra a marcha das coisas, marchando para o norte a 27 de julho de 1837, entrou na Beira, onde se lhe juntaram algumas tropas, muito menos do que ele imaginava, porque a revolução popular setembrista ainda tinha um grande prestigio. O barão de Bonfim foi enviado com tropas importantes contra o marechal Saldanha, mas este, com a habilidade que o distinguia, zombou do seu feliz adversário, escapando-se por uma série de marchas estratégicas, indo unir-se ao duque da terceira e a Mousinho de Albuquerque em Torres Vedras, onde formaram uma regência provisória, e marchando sobre Lisboa, acamparam em Loures, ao passo que Bonfim se encontrava no Pombal. Esperavam os marechais que Lisboa se pronunciasse a seu favor, mas não sucedeu assim, tiveram por conseguinte de retirar, porque dispunham apenas de três batalhões de voluntários mal armados e um regimento provisório de infantaria de linha. Tendo boa cavalaria, mas não tendo um só canhão, não podiam os marechais atacar Lisboa. Retiraram, pois, para o norte em procura da divisão auxiliar de Espanha, que recolhia a Portugal, por ordem do governo, e que esperavam que aderisse à sua causa. No dia 28 de agosto de 1837 encontraram se no Chão da Feira com o barão de Bonfim, e aí se travou batalha, que terminou por um acordo entre Saldanha e Bonfim, que no meio da batalha se encontraram e deliberaram suspender a luta para verem se chegavam a um acordo sobre a questão constitucional. Os marechais retiraram para Alcobaça, Bonfim para Leiria, e em Aljubarrota se reuniram comissários para tratarem dum convénio. Não se podendo chegar a um acordo, romperam-se de novo as hostilidades. Aqui se mostrou mais uma vez a habilidade do marechal. A derrota em Chão da Feira era quase inevitável, nem Saldanha decerto aceitaria o combate, se não esperasse que as forças setembristas passassem para ele, graças ao seu antigo prestigio. Só isso aconteceu com uma parte da cavalaria, mas a infantaria formada em quadrado resistiu intrepidamente, e a falta de artilharia colocava os marechais na mais desastrosa inferioridade. A interrupção do combate foi a salvação para eles. No dia seguinte unia-se o barão do Casal a Bonfim e Saldanha por conseguinte não podia seguir para o norte pela estrada de Leiria. Mais uma vez, porém, iludiu os adversários, e torneando-os por uma marcha audaciosa e feliz, foi sair a Rio Maior, passou a Santarém, depois a Tomar, e ainda Bonfim andava à procura dele, e já ele estava em Trás-os-Montes. Ao chegarem, porém, a Chaves, souberam os marechais que o barão de Leiria, contra as ordens expressas que recebera, tendo-se-lhe reunido uma das brigadas da divisão expedicionária de Espanha, dera batalha em Ruivães à outra brigada comandada pelo visconde das Antas, e fora batido. Vendo então que não podiam prolongar a luta, assinaram uma convenção, e partiram para o estrangeiro, terminando assim a revolta, que ficou conhecida pela revolta dos marechais. 


Saldanha foi residir para Paris até que, voltando ao reino, o governo cartista o encarregou de varias embaixadas, passando quase todo o seu tempo até 1846, empregado na carreira diplomática. Esteve em Londres, em Madrid e em Viena, onde a rainha e os seus confidentes o conservaram de reserva para o momento em que fosse preciso. Em 1846, portanto, prosseguiu na vida política, de certo um campo muito menos brilhante para ele do que a carreira militar. Já não é muito explicável, apesar de tudo, a sua insurreição de 1837 contra a revolução liberal que devia agradar, segundo parecia ao redactor do Nacional, ainda se percebe menos que depois de ter sido uns dias ministro da guerra e dos negócios estrangeiros no gabinete de Palmela de 20 de maio, não recusasse cobrir com a sua responsabilidade o odioso golpe de estado de 6 de outubro de 1846, pelo qual a rainha faltava à sua palavra, e opunha o seu veto ao movimento democrático do país. Saldanha, o homem mais popular do país, ia agora afrontar o movimento mais verdadeiramente popular que couve entre nós, indo servir os interesses do conde de Tomar contra os interesses legítimos do povo. Mas chegava o momento de desembainhar a espada, e o marechal recuperava o seu antigo esplendor. A revolução do Minho, promovida pela emboscada de 6 de outubro, rebentara com energia, organizara no Porto a Junta que dirigiu a revolução e o conde das Antas, à frente das tropas liberais, marchou sobre Lisboa parando sobre Santarém, onde destacou para Alcobaça e Caldas uma divisão comandada pelo conde de Bonfim. Saldanha, deixando o ministério para assumir o comando das tropas cartistas, ocupou o Cartaxo, e vendo a imprudência do conde das Antas, marchou sobre Bonfim que seguia para Torres Vedras, onde foi obrigado a capitular depois da batalha de Torres Vedras, em 22 de dezembro de 1846, e que é uma das mais brilhantes da carreira militar de Saldanha. Bonfim teve de se entregar com toda a divisão, Antas viu-se obrigado a retirar sobre o Porto, seguindo-o Saldanha que ocupou a posição de Oliveira de Azeméis, isolando assim o Porto do sul do País, sem que a junta ousasse mandá-lo atacar até que a intervenção estrangeira pôs termo à luta civil, pela convenção de Gramido assinada em 80 de junho de 1847. Saldanha havia sido agraciado com o título de duque, por decreto de 4 de Novembro de 1846 fora elevado ao pariato e nomeado mordomo-mor da rainha. 


A 18 de dezembro de 1848 formou se um ministério, presidido por Saldanha, presidência que conservou até 29 de junho de 1849, em que a rainha, julgando ser tempo de acabar com aquele ministério que considerava de transição, chamou de novo Costa Cabral, já então conde de Tomar, aos conselhos da coroa. Saldanha feriu-se profundamente com esta resolução da rainha, e começou a fazer uma oposição furiosa ao novo governo. O conde de Tomar, procedendo com a sua habitual energia, aconselhou a rainha a que o demitisse do cargo de mordomo-mor da Casa Real. Ferido também no seu amor próprio, o marechal pediu a demissão de todos os seus cargos de comissões, e saiu a campo, publicando em 1850 o Requerimento e correspondência do duque de Saldanha com o ministro da guerra, por ocasião de ser demitido do ofício de Mordomo mor da Casa Real. A publicação deste folheto deu em resultado levantar-se uma viva discussão na imprensa, e imprimiram-se avulsos vários opúsculos e panfletos, nos quais a questão foi diversamente avaliada, saindo anónimos a maior parte deles. Sentia-se bem que o conde de Tomar jogara uma carta arriscada, e que Saldanha não deixaria de tirar a desforra. Esta desforra não demorou muito. O marechal resolveu, portanto, vingar-se, e a corresponder aos votos do país, fatigado da administração enérgica mas áspera do conde de Tomar. A 7 de abril de 1851 saiu de Sintra com uns oficiais do seu estado-maior, partiu para Mafra, na intenção de revoltar o Regimento de Infantaria n.º 7, mas apenas alguns soldados tomaram o seu partido. Reuniram-se-lhe apenas alguns batalhões de caçadores n.º 1, que estava em Setúbal o n.º 5, que estava em Leiria. O marechal julgou perdida a insurreição, porque todos, ou quase todos os coronéis eram cabralistas, e haviam fugido com os regimentos ao marechal, como fizeram os comandantes do n.º 9 e do n.º 14 de infantaria e o n.º 4 de cavalaria. Entrara Saldanha já em Espanha, e achava-se em Lobios na Galiza, quando cartas de José Estêvão e de outros homens notáveis do partido progressista o chamaram a Portugal, onde triunfava o seu movimento, exactamente quando ele o supunha perdido. A guarnição do Porto insurgira se a seu favor, e um dos coronéis que tinham tentado opor-se à revolta, foi morto. Saldanha entrava triunfante no Porto, onde ia reunir-se-lhe dentro em pouco tempo quase toda a divisão que, debaixo do comando do rei D. Fernando, saíra de Lisboa para se lhe opor. Em Lisboa entrava pouco depois, a 13 de maio, o marechal, e a sua entrada foi festejada com delirantes ovações, iluminações, vendo-se pelas ruas filarmónicas tocando um hino composto em sua honra. Pouco fora preciso para Saldanha recuperara popularidade, que por um instante lhe resfriara um pouco. O marechal com as suas tropas passou em continência em frente do palácio das Necessidades, mais como afronta à rainha, do que como um acto de submissão. O conde de Tomar fugiu para o estrangeiro, el-rei D. Fernando entregou-lhe o bastão do comando em chefe do exército, e a rainha teve também de o aclamar, quando o povo o saudava como a um triunfador. Saldanha, tomando posse do governo em ditadura, promulgou grande número de leis. Este movimento ficou conhecido na história pela Regeneração. Saldanha tinha a seu lado no ministério Rodrigo da Fonseca Magalhães, e chamou ao poder um jovem deputado de um imenso futuro, e que veio a ser mais tarde uma sumidade política, Fontes Pereira de Melo. Durante cinco anos dirigiu esta administração regeneradora que pôs termo definitivo ás lutas políticas, fez passar o Acto Adicional à Carta Constitucional, fez entrar o país no caminho do desenvolvimento material; assegurando o pagamento pontualíssimo dos funcionários, e tratando seriamente da viação publica. 


Em 1856 cedia Saldanha o poder ao ministério progressista histórico, voltando a ocupar-se principalmente na carreira diplomática. Pouco tempo depois entregava-se também a uma especialidade muito inesperada, à especialidade médica. Fazia-se em Portugal o advogado da homeopatia, publicando em 1858 o seguinte folheto: Estado da medicina em 1858; opúsculo, dividido em cinco partes, dedicado a el-rei o Sr.. D. Pedro V, e oferecido aos homens de consciência e superiores, que entre nós ensinam ou praticam a nobre e liberal profissão da medicina. Este folheto promoveu resposta do Dr. Bernardino António Gomes, travando-se entre o ilustre marechal e o bem conhecido médico uma discussão veemente. Já em 1845, estando embaixador em Viena de Áustria, publicara um livro intitulado: Concordância das ciências naturais, e principalmente da geologia com o Génesis fundada sobre as opiniões dos santos padres e dos mais distintos teólogos; extraída de um trabalho do marechal marquês de Saldanha sobre a filosofia de Schelling. Atribui-se-lhe também um outro folheto: Curtíssima exposição de alguns factos, Lisboa, 1847; este opúsculo, concernente à explicação do movimento político do 6 de Outubro de 1846, saiu sem o nome do autor. Publicou depois um Aditamento à «Curtíssima exposição de alguns factos», tendo a data de 3 de setembro de 1847, e por assinatura Um português. Nos catorze anos que decorreram de 1856 a 1870 conservou-se Saldanha constantemente afastado do poder. Ministro em Roma, em Paris, ou em Londres, representava com grande esplendor o seu país e era em toda a parte um dos vultos mais notáveis do corpo diplomático. Por mais duma vez o nome do duque de Saldanha foi indigitado para a presidência do conselho, mas, ou porque ele se recusasse, ou porque as circunstancias políticas mudassem e não tornassem necessário o seu chamamento, é certo que sempre continuou a exercer as suas missões diplomáticas, até que em 1869, tendo vindo a Lisboa, e julgando-se desconsiderado pelo ministério progressista presidido pelo duque de Loulé, resolveu fazer sentir ao governo que, apesar dos seus oitenta anos, ainda conservava o antigo prestigio no exército e a verdura da mocidade. Deu ouvidos ás incitações do conde de Peniche e do grupo de revolucionários que acompanhava este fidalgo, e à frente do Batalhão de Caçadores n.º 5 e do Regimento de Infantaria n.º 7, proclamou a queda do ministério. Só a guarda municipal, alguma artilharia e um esquadrão de lanceiros deixou de unir-se aos revoltosos. Saldanha dirigiu-se com a força que angariara, ao palácio da Ajuda na noite de 19 de maio de 1870, onde uma bateria do 3 de artilharia lhe faz fogo, que é correspondido pelos caçadores revoltados, mas a resistência durou poucos minutos e os artilheiros rendem-se, ficando apenas mortos uns cinco e igual. número de feridos. Várias balas de caçadores esmigalharam as vidraças do paço, e lhe furaram os estuques. O ministério quer conservar-se a todo o transe, não lhe importando que para isso corra jorros de sangue. O rei D. Luís estava aterrado; não queria guerra, não queria derramar sangue, e estava por tudo quanto Saldanha quisesse. Mandou chamar o duque de Loulé para lavrar o decreto da demissão dos ministros, mas o duque recusa-se terminantemente a referendar tal decreto, mas vendo por fim que o rei se obstinava em não querer guerra, cedeu, e foi reunir-se aos seus colegas para envidarem todos os meios de sufocarem a revolta. Finalmente o rei assinou o decreto da demissão do ministério, e Saldanha ficou senhor da situação, e como ditador formou em 25 de maio um ministério, em que entravam D. António da Costa, marquês de Angeja (conde de Peniche), D. Luís da Câmara Leme, José Dias Ferreira e conde de Magalhães, ficando Saldanha com a presidência e as pastas da guerra e dos estrangeiros. Promulgou uma série de reformas mas, em 29 de agosto do mesmo ano de 1870, um outro golpe de estado promoveu a queda do ministério, retirando-se de novo Saldanha como ministro para Londres, onde veio a falecer com oitenta e seis anos de idade. 


O duque de Saldanha havia enviuvado em 13 de agosto de 1855, e passou a segundas núpcias, em Londres, sendo já octogenário, com D. Carlota Isabel Maria Smith, irmã do conde da Carnota, John Smith Athelstane, já viúva do Dr. Edward Binns. Possuía as seguintes honras: grã-cruz das ordens de Cristo, da Torre e Espada, de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, de S. Tiago, e de S. João de Jerusalém; das seguintes ordens estrangeiras: S. Fernando, Isabel a Católica e Carlos lII de Espanha; da Legião de Honra, de França; de S. Gregório Magno e da Pio IX, de Roma, de Ernesto Pio, de Saxe-Coburgo; de Leopoldo, da Áustria; do Leão, dos Países Baixos; de S. Maurício e S. Lazaro, de Itália; de Leopoldo, da Bélgica; de Alberto, o Valoroso, de Saxónia; do Salvador, da Grécia; da Águia Branca, da Rússia; cavaleiro da Ordem do Tosão de Ouro, de Espanha, da Santíssima Anunciada, de Itália; condecorado com as medalhas do Buçaco, de S. Sebastião e de Nive; de seis batalhas da Guerra Peninsular, da Estrela de Montevideu, etc.; sócio emérito e vice-presidente da Academia Real das Ciências, membro da Sociedade Geológica de França, da Academia das Ciências e Belas Letras de Anvers, da Sociedade Estatística de França, e de muitas outras associações cientificas e literárias da Europa. Por decreto de 30 de outubro de 1862, foi agraciado com as honras de parente. O seu brasão é o mesmo, que já se publicou e se descreveu, no 1.º vol. do Portugal, pág. 56, no artigo dedicado a seu filho, o conde de Almoster. O brasão é igual sob coronel de duque. 


Saldanha foi também um escritor muito considerado. Entre as obras que deixou, citaremos as seguintes: um folheto Algumas ideias sobre a Fé; sem designação do lugar da impressão, mas tem no fim a data de Lisboa, 17 de maio de 1857; Discursos do presidente de ministros, duque de Saldanha, proferidos nas sessões de 14 e 15 de fevereiro na Câmara dos dignos Pares, por ocasião das acusações feitas pela oposição, Porto, 1848. Achando se em 1864 embaixador em Roma, assistiu a uma sessão da Academia dos Quirites, celebrada no palácio do príncipe de Alfieri, em 21 de abril, e recitou na presença de vários cardeais, prelados e outras personagens distintas, a dissertação que para esse fim escrevera: Il natale di Roma. Em 1865, voltando aos seus estudos médicos, publicou: Duas palavras sobre a homeopatia como preservativo e curativo da Cólera morbos. Escreveu mais: Carta sobre o casamento civil, dirigida ao ex.mo presidente  do Conselho de Ministros, Lisboa, 1865; A Verdade, Lisboa, 1863 constava de quatro capítulos: 1.º Expectação universal; 2.º A antiguidade não realizou o ideal da perfeição humana; 3.º Jesus Cristo, Deus e homem verdadeiro; 4.º Algumas ideias sobre a Fé; teve 2.ª edição em 1869; Carta ao sr. Latino Coelho acerca da razão que o impediu de assistir à inauguração da estátua de D. Pedro IV no Porto, com a exposição dos serviços que na mesma cidade prestou durante o cerco e depois, até ao fim da luta civil de 1839; saiu no Jornal do Comércio, de 26 de outubro de 1866; Necessidade de associação católica, Londres, 1871; A Voz da Natureza, etc., publicou o 1.º vol. em Londres, 1879; o 2.º vol. saiu em 1876, no mesmo ano da morte do marechal; segundo o autor, a obra devia ter três volumes, mas parece que o 3.º se não chegou a publicar. Em 1869 publicou em vários jornais de Lisboa (Diário Popular, Jornal do Comércio, Diário de Noticias), cartas para explicar o seu procedimento político, e que são documentos preciosos para a historia dos preliminares da revolta de 19 de maio de 1870. O duque de Saldanha tem artigos biográficos no Dictionnaire des contemporains, de Vapereau; no Dictionnaire générale de biographie et d'histoire, de Dézobry et Bachelet; na Nouvelle biographie générale, tomo XLIII; Historia do marechal Saldanha, por D. António da Costa de Sousa de Macedo; O Marechal Saldanha, romance histórico, de César da Silva, publicado pela casa editora João Romano Torres & C.ª. O escultor Alberto Nunes executou em 1880 o busto em mármore do marechal Saldanha, trabalho de muito valor artístico, que foi destinado para a Câmara dos Pares.


Fonte: http://www.arqnet.pt/dicionario/saldanha1d.html